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longe

Na sacada do prédio tinha uma fresta. Ele gostava de deitar entre as plantas e ficar olhando pelo buraquinho pras pessoas que passavam. Acabava convivendo com elas sem que elas soubessem. Era irmão, sobrinho, era amigo, namorado. Tinha um parentesco invisível com aqueles desconhecidos. Falava com eles, perguntava sobre suas vidas. Ouvia novidades sobre parentes de outro país, romances de escola, mortes de avós.
Dai ele apareceu. O outro.
O moço observador até se remexeu no lugar pra ver melhor. O outro andava muito rápido, sem olhar pros lados, um ar de bravo. Parecia irritado, não sabia explicar o porque. Olhava as coisas de baixo pra cima com um olhar tão afiado, que as vezes parecia que cortava fundo nos olhos como uma navalha, que se estendia pelo cérebro e se transformava em choquezinhos que corriam pela espinha dele dando arrepios. Ficou viciado nos olhos do garoto, e passou a observá-lo todos os dias. Parou de assistir desenhos, adiou o nescau da tarde, tudo pra não perder um segundo. Treinou encarar o garoto do mesmo jeito, fazia aquele olhar no espelho. AS vezes conversava com ele como se estivessem próximos. Ensaiava algumas piadas que sabia que não tinham a menor graça, pedia desculpa pra ele, e devolvia o olhar afiado de deboche.
Dai de longe, colocava as mão em frente aos olhos, como se afagasse aqueles cabelos macios, e passava a mão no rosto dele deixando os dedos se perderem na barba, passearem pelo contorno da face, esfregarem de leve os lábio, ocupados em morder devagarzinho suas unhas. E suspirava o outro e ele suspirava também, saindo prolongado, espalhando um calor bom pelo corpo. Ele se encolhia todo no chão e deixava o corpo formigar, os pensamentos voarem sem rumo por lugar nenhum em cores que se emendavam em tons claros e brilhante se desciam se avermelhando pela bochecha dele. E ria, ria sempre.
Era um dia meio chuvoso. Um dos que o outro  não tinha aparecido ainda. Estava descalço, e ficava entrelaçando os dedos do pé um nos outros, o olhar distante sem se perder em nenhum parente desconhecido. Aí pelo canto do olho viu o brilho daqueles olhos, e se virou rápido. Veio o olhar, bem em sua direção como sempre, veio o calafrio, veio o calor. Mas ele dessa vez não atravessou a rua. Parou. Continuou mantendo firme aquele olhar que parecia que era feito pra ele.  Aos poucos, a boca  do outro se abriu num sorriso, ele mordeu de levinho a unha, naquele tique pelo qual já tinha se apaixonado. O sorriso aumentou e se iluminou, e virou uma risada baixa que era tão mais bonita, tão mais incrível. Se aproximou do terraço.
___Vem cá – o outro disse.
Era um dia de chuva. A água escorria pelo rosto de um, e atravessava o estômago em borbulhas do outro.
O portão bateu e uma conversa abafada pela chuva se prolongou. E prolongou.
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Escorre pelos dedos

Era um dia bonito de sol, chovia fraquinho deixando gotinhas brilhantes no cabelo muito desgrenhado dele. A praia era tão bonita naquela hora. Ele coçou o nariz, e deu um espirro. Riu. Deixou as pernas escorrerem pela areia e tocar as ondinhas com as pontas dos dedos. Elas vinham se deixar escorrer entre os dedos dele e iam embora felizes, fazendo um barulhinho surdo.
Ele olhava fixo pras ondas lá pra longe, e acompanhava o movimento delas até a margem, até seus pés. Elas vinham correndo dar um beijo de oi, e fugir envergonhadas, tímidas.
Começou a apertar a areia ao seu redor e deixar ela escorrer entre os dedos, bem clarinhas. Elas voavam com o vento e se dispersavam. Sumiam.
Pensou em todas as coisas que escorreram por esses mesmos dedos, arrastadas pelo mar das insconstâncias, indo embora fazendo um barulhão de onda brava, de temporal. De como esses grãozinhos se perdiam pra sempre num mar escuro, e de como um aperto no estômago fazia ele lembrar de todas essas coisas que a correnteza levou.
Mas ali no lado dele tinha mais areia. Mais areia pra deixar cair levinha pelos dedos, se diluir na água e ir embora com o chiado alegre das ondas. E daí percebeu que as ondas da margem, vinham escuras trazer mais areia para se grudarem nos pés descalços. Ficavam ali, geladinhas no valinho entre os dedos. Essa areia iriam secar ao sol enquanto ele caminhava de volta até a calçada, bem presas, insistentes, querendo de qualquer jeito permanecer em sua pele pelo máximo de tempo que pudessem.
Ele já estava na calçada, e ia colocar os chinelos. Bateu os pés com força. Insistente. Não queria levar esse pedaço triste da praia com ele. A areia foi embora com a mangueira, mas o sal ainda estava ali, queimando invísivel num sol quente, com uma chuvinha que não ia se tornar um temporal.  
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gota

Ligou o spotify e deixou tocar a última musica que tinha ouvido. Era triste, de uma daquelas tristezinhas que ao mesmo tempo que atravessava o coração de um jeito seco e cruel, como se colocasse um piercing no meio do peito,  se tornava uma depressão comedida e morna, acalentadora, pra se deitar no colo dela, e deixar ela acariciar os  cabelos, dizendo que nada ficaria bem, mas que você poderia dormir com essa magoazinha no coração. Embaixo dágua, com as gotas escorrendo pelos cabelos, cobriu o rosto imaginando o quão choroso ficaria, mas não ficou. Percebeu que a música não lhe fazia mal e inclusive, cantou com ela. Cantou alto o refrão, esboçando um inglês inexistente cheio de berrinhos incompreensíveis.
Fechou a torneira. Passou a mão entre os cabelos pra tirar o excesso de água. Parou pra esperar  líquido escorrer pelo corpo para então poder se secar.

Ela estava ali, bem na sua frente. Abaixo da mangueirinha-de-lavar-pé (como chamava desde criança), bem naquela hastezinha que abre e fecha o fuxo de água, na pontinha da bolinha da extremidade, uma esferinha de água surgia. Era pequena, e ia lentamente aumentando de tamanho. Deixou-se ficar ali, observando a pequenina se desenvolver, criar corpo. Imaginou ela caindo em alguns segundos, e então secaria o cabelo e se jogaria na cama, pra ouvir alguma coisa depressiva, ou assistir alguma coisa depressiva, ou pedir uma pizza e ficar deprimido e arrependido depois.

Mas a gotinha não caiu. Ela se formava muito lentamente, e agora que tinha adquirido mesmo a forma de uma esfera pra começar a se esticar. Já com frio, se enrolou na toalha, olhou pros lados como se alguém invisível pudesse julgar sua permanência ali, e sem qualquer objeção do vazio, que era muito rabugento e solitário, continuou observando sua amiga ocasional.
Já tinham passado uns poucos minutos.

A gota estava vistosa, gordinha. Mas nada de cair. Se secou, porque já estava tremendo, colocou a roupa pra deitar. Tentava olhar pra dentro do box a intervalos curtos, porque não queria perder aquela queda. por algum motivo sabia que sorriria vitorioso em ver a gotinha cumprindo seu destino, indo se encontrar com as outras no ralo redondo, junto com a multidão de gotinhas que se acumulava no esgoto lá embaixo, um país de gotinhas, a china das gotas dágua. Mas nada.

Ela se prolongava. Estava enorme e comprida. Estava ameaçadoramente grande, se enchia com tanta vagarosidade , como se não se importasse com o nervosismo alheio de um mundo de pessoas ao seu redor esperando outras gotinhas sádicas cairem logo pelo ar, brilhantes. Foi quando do chuveiro, várias gotas começaram a pingar. Eram rápidas, várias, chapinharam barulhentas no chão ainda molhado. Não tinham graça aquelas, sairam sem avisar, sem dar satisfação e foram embora. Passaram pela vida dele rápido, sem deixar qualquer impressão. Mas teve medo que elas acertassem a outra, e isso estragaria tudo.

Mas ela não foi atingida e preguiçosa continuava sua decida, se alongando mais um pouquinho. Estava ali a muito tempo. Já estava cansado de esperar.

Decidiu que não merecia essa ansiedade. Que não tinha nenhuma obrigação de esperar pela gota, mas que apesar de ter uma paciência inacabável, não gostava mais da expectativa. Da demora. Do fato de que nada realmente acontecia naquela relação que criaram, sem que aquela gota tivesse pedido pela atenção que ele lhe dava. Que toda aquela expectativa só vinha dele, sobre aquela formação de água sem sentimento para retribuir.

Então saiu do banheiro. Quis imaginar vários finais praquela gotinha. Teria caido no ralo e se juntado as outras. Teria parado de se desenvolver e ficado ali, paradinha. Teria regredido. Teria caido sozinha em uma área seca e ficado ali toda espalhada. ou numa gotícula, até ser pisada. Ou se secar. Daí viu que o que mais lhe torturava era esse "se". Essa possibilidade de que muitos finais ocorresem, aquele sofrimento de ficar pensando em várias possibilidades, de encher a cabeça com coisas que poderiam ou não ter acontecido.

Então decidiu que o fato de um pinguinho de água ter se desenvolvido na frente dele, e conquistado o seu olhar curioso era um momento no tempo que ficaria na sua memória como algo querido e fora do comum, e poderia sorrir ao se lembrar daqueles momentos que existiram e foram reais. E que todas aquelas possibilidades estariam perdidas agora numa realidade da qual não fazia parte e portanto não lhe pertencia.

Deitou na cama e colocou algo alegre pra tocar, enquanto escrevia algo bastante convincente em seu blog. Ou talvez tivesse ficado em silêncio, ouvindo as teclas barulhentas, e a música estivesse ali pertinho. Ou na sua cabeça. Talvez ela nem fosse feliz, talvez fosse a música do início. Tantas possibilidades, que você não vai saber se foram reais, afinal, isso é uma história que pode ou não ter acontecido.

Dormiu com gosto de pizza de marguerita na boca, arrependidíssimo por sua falta de auto-controle e não sonhou, apenas teve um sono longo e despreocupado. Um sono simples e leve, do jeito que eu queria que essa história acabasse. 
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Escuro

O céu não tinha estrelas, mas era clarinho. Claro de olhos que começavam a se acostumar com o breu, e a ver os contornos ao redor. Havia uma lua, e ela era o suficiente pra deixar os olhos pesados, ardendo. A luz da lua refletia lágrimas que escorriam devagarzinho e caiam sobre a areia branquinha e gelada. Ele pegou um punhado desses grãos fininhos e jogou pro ar, pra ver eles flutuarem. QUeria que seus sentimentos pudessem flutuar pra longe junto com aquela areia ao vento.
Não aguentou mais conter o choro, os soluços começaram a surgir, fraquinhos até se tornarem cada vez mais fortes, os olhos iam se avermehando, brilhantes com a luz daquela bola enorme, presente ali pra assistir a sua tristeza.
Tentou levantar, mas viu que não podia. Viu que os pés tinham se tornado areia, que ele se desfazia devagarzinho naquele infinito brilhante. Viu que o vento levava seu corpo pra longe, exatamente como queria que fizesse. Então resolveu deitar.
Milhares de lembranças Voaram pela sua cabeça, rápidas, o som da voz dele, o gosto da boca, o barulho do riso tão baixinho, tão bonito. Ao ponto que seu peito ia se desfazendo , viu que o coração não batia mais dolorido, e que os braços não podiam mais se machucar. Se beliscar. Se esbofetear.
A cabeça foi ficando levinha, os cabelos pareciam se esticar e se desmanchar. Os olhos ficaram secos, sentia o gosto terroso na língua, se espalhando. Dai parou de ventar. Se sentiu leve, misturado com todo aquele pó solitário. Então da própria areia, saiu nu, dolorido, rejeitado pela terra e pelo vento. Ergueu-se, foi até o mar que batia nas margens, foi indo cada vez mais pro fundo. A lua se refletia em seus cabelos e em seus sentimentos. Ela queimava, fazia doer tão forte. Queria morrer.
Já era fundo o suficiente pra se deixar levar pela correntesa. Não se arrependia, só queria que aqueles redemoinhos de água brilhantes o encobrissem e o levassem pro fundo. E depois pra longe.

Quando acordou no dia seguinte, com a garganta salgada da água que engoliu, sentiu a cabeça pesar. Olhou o horizonte, o céu ficando laranja e roxo, rompendo em cores tão bonitas. Virou para o lado e voltou a dormir. Sonhou que era feliz, e desse sonho não acordou mais.
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Herança

Ela jogou a pequena caixa de metal contra o vidro fininho, e uma enxurrada de vidro brilhante voou pelos ares num barulho muito alto. O rímel tinha escorrido até as bochechas, o batom todo borrado na boca. Os olhos muito vermelhos, as lágrimas não paravam de escorrer.

___Filho da putaaaaaaaaaaaaa. MORREEEEEE.
Sem forças, deixou seu corpo cair sentado no chão. Havia vidro espalhado por todos os móveis vitorianos, tão lustrosos, cadeiras de encosto tão vermelho encarnado como sangue. Ou talvez elas estivessem cobertas de sangue. Talvez todas as tapeçarias, lençóis, encostos, chão... Talvez tudo tenha sido alvo e tranquilo, em algum lugar no tempo, que desconhecia.
Sabia que não podia permanecer sentada. Sabia que a criada iria aparecer em breve cobrando a caixa do avô. Viu ela pegar, com certeza. Não havia nada que aquela senhora não soubesse.
Abriu a porta devagar, e contradizendo qualquer conto de terror, não, ela não rangeu. Por estar descalça, andar sobre os tapetes abafou completamente o som de seus passos. Não haveria criatura humana que pudesse pereber sua presença. Mas claro, ela percebeu.
___Senhorita, não devia estar andando pela casa a noite. Muitos lugares são bastante escuros, não queremos que você, porventura escorregue em algum piso limpo e acabe se ferindo. Seu avô nunca me perdoaria.
A luz da vela lançava sombras estranhas sobre o rosto dela. Dona Carmen tinha aquelas feições duras de quem não sorri com frequência e o rosto se acomoda com aquele cenho franzido e aquela boca retesada, marcando rugas profundas nessa área. Odiava o fato de que falava do avô como se não tivesse morrido no acidente, como se estivesse em seu quarto, esperando. Como se as cinzas do maldito não estivessem naquela maldita caixa que tinha acabado de ser arremessada pela janela. E claro que ela sabia da caixa, porque, como eu disse, não havia nada que ela não soubesse. Talvez elanão soubesse ser simpática. É, isso ela não sabia.
___Eu estava meio cansada de ficar no quarto, estou com insônia. Resolvi dar uma explorada no casarão.
___Faça isso pela manhã, por favor. É muito cedo para verificar sua propriedade, garanto que de dia é mais fácil avaliá-la. Acredite senhorita, eu me preocupo com a integridade de sua pessoa.
A expressão no rosto dela era de um desdén irônico, que deixou a garota furiosa, mas se conteve.
___Entretanto, vamos até a sala para que eu possa limpar esse corte que o vidro fez no seu rosto. Não queremos que infeccione.
Foi instantâneo levar a mão ao rosto e perceber que havia algo grudendo nele. Levou os dedos ao nariz e o cheiro férreo era bem claro.
___Ah, ok.
Uma coisa não poderia se reclamar dela. Era cuidadosa. Limpou o ferimento com cuidado, aplicou um pouco de iodo com uma bolinha de algodão, colocou um pedaço de gaze que cortou num retângulo milimétrico, e prendeu com esparadrapo hipoalérgico.
___Pronto querida Emi. Está bem melhor.
___Você é muito boa nisso.
___Sou enfermeira, você sabia? Cuido do seu avô. Ou cuidava...
Emily tinha muito, muito medo de fantasmas, e a mulher agindo daquele jeito só conseguia mantê-la apavorada. O avô, tinha sido uma pessoa terrível, batia em sua mãe, batia nela, era violento ao extremo. Experimentava todo tipo de objeto para surrá-las, correias de máquinas, vassouras, panos molhados. Quebrou uma cadeira nas costas de minha mãe uma vez. No sonho que a fez ter insônia, ele vinha até ela dizendo que em breve, com ela aconteceria exatamente o mesmo que com a mãe. A mãe que desapareceu abandonando a garota com os tios, e nunca deu notícia. Num ímpeto maluco, pegou a caixa que tinha as cinzas do avô e jogou pela janela. O vento deve ter carregado. O vento tem que ter carregado. Velho nojento.
___Senhorita Emi, perdão nem perguntei se poderia chamá-la assim. Seu avô sempre mencionava seu nome dessa forma.
___Pode sim. Nem sabia que meu avô falava de mim.
___Com frequência. Dizia sentir sua falta.
___Disso eu duvido. Meu avô era a pior pessoa que eu conheci.
___Sim ele era. Algumas coisas não mudam ein.
Nesse momento, por alguns segundos Emily se compadeceu de Carmem. A expressão momentânea de angustia em seu rosto demonstrava que meu avô tinha dado trabalho. E ela imaginava o quanto.
Naquela sala, a luz da lareira iluminava o ambiente de forma aconchegante, meio que protetora. A luz tinha acabado logo cedo, e demoraria talvez dias pra virem consertar. Não tinha nenhuma esperança que retornasse antes de ir embora. Era mehor vender aquele lugar logo.
Foi quando um vento forte entrou pela janela entreaberta, as cortinas voaram pelos ares, era um vendaval inacreditável. Tão forte a ponto de apagar completamente todas as velas e até mesmo a lareira. A casa ficou num completo breu, exceto na região próxima a janela, daonde uma luz fraquinha, emitida pela lua beijava o assoalho de madeira lustroso.
A senhora aperta a mão de Emily com força. Os olhos das duas vão se acostumando ao escuro e os contornos dos móveis vão surgindo aos poucos. Um vulto parece ter entrado pela janela lentamente, se esgueirando pelo canto da parede. Era completamente negro, e andava agachado como um animal. Dava de ouvir um grunhido baixo vindo dele, ele vinha cautelosamente, como um animal caçador que examina sua presa.
___Ele veio então - disse Carmen - sabia que viria.
Num empurrão, a velha jogou Emily sobre o tapete e ficou olhando-a com uma expressão ríspida.
___Sinto muito menina. Ele disse que viria te buscar. Não tem nada que eu possa fazer.
___Ele quem?
___ Achei que isso estivesse claro.
O vulto vai se aproximando com cautela. Emily vai se esgueirando  de costas, tentando alcançar o sofá. A velha se afasta aos poucos, rígida, observando a cena,
___Não, não deixe ele me pegar.
___Senhorita, sua vinda até esse lugar tinha esse objetivo, desde o início. Assim tem sido a gerações, e assim será hoje.
Foi quando a criatura saltou. Emily não conseguiu reagir, sentiu suas garras negras cortar seus braços como manteiga, como um bituri muito afiado. Viu os olhos brilhantes de seu avô naquele rosto desfigurando, olhando bem denro de seus olhos, talvez de sua alma. Sentiu o cheiro de sangue naquele hálito. Então desmaiou.

Acordou com a luz do sol banhando sua face. Sentia todo o corpo dolorido, a cabeça pesava e doia. Não podia acreditar que estava viva. Olhou para os ferimentos no braço, cobertos de gaze e muito bem atados. Viu que tinha ataduras por todo o corpo. Viu que estava nua e cheia de ataduras, uma múmia numa piada sem graça. A empregada estava sentada ao sofá olhando pra ela, com ternura.
___Bom dia.
Tentou levantar, ainda meio debilitada. Foi quando sentiu o sangue nas mãos ao se apoiar no chão.
Virou pra trás e lá estava a mãe, exatamente como lembrava dela, deitada no chão, a barriga aberta, completamente estripada. Havia um ar de desprezo naquele rosto, de arrogância. Da cabeça, uma poça de sangue grudento. As mãos retesadas. O corpo muito pálido.
Carmem nada disse, como se isso não fosse necessário. E não era.
Foi até a cozinha e trouxe uma bandeja com café bem quentinho, pão de casa e geleia. Ficou observando a menina comer, enquanto penteava seu cabelo. bem. devagar.

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ferin

recorrente

Estevão era daqueles que se escondem embaixo do guarda-chuva para não ter que encarar o olhar cruel das pessoas a sua volta. Usa sempre abaixado, cobrindo seus olhos castanhos curiosos.

Na cidade em que mora, chove o tempo todo o que torna comum a convivência do garoto com calças e sapatos que andam de lá pra cá. Eles estão apressados, ou parados, andando rápido ou muito lentamente, arrastando os pés ou correndo nos calcanhares.
Como o caminho até o trabalho é longo, ele acaba se divertindo com o comportamento daquelas pernas e pés, e com a combinação de roupas da parte inferior que seus donos decidem pra eles.
Olha só, - fala pra si mesmo - usando calça de moletom com chinelo de dedo e meia, deve ter acordado agora. E o moço de bota de chuva e bermuda? Deve ser velhinho porque arrasta os pés e fica dando tossidinhas. Deve fumar também. E essa senhora com um sapato com furinho bem no dedinho? Péssima idéia usar uma meia branca né, hehehe.
Ele então fica dando risinhos comedidos sozinho, pedindo pra si mesmo se controlar e parar de falar mal dos outros (mas é tão divertido).

Naquele dia, a chuva estava mais grossa que de costume, as ruas estavam bastante cheias de água, com muitas áreas elameadas e cachorrinhos de pêlo molhado correndo por aí. Vários pés iam de um lado pro outro, fugindo da chuva enquanto muitos guarda-chuvas disputavam espaço com o dele. Pés de calçados fechados se divertindo com o chapinhar  da lama  voando pelos ares, mais felizes talvez que os cachorros.

Foi ai que viu aquele sapato, lustroso e muito escuro, tamanho 44, grandão, imponente. A calça socia era curta, deixando a mostra uns tornozelos fininhos que vestiam uma meia azul escura com uma tirinha fina cheia de pequenas ancorazinhas. A forma como as pernas se posicionavam, com um pé levemente voltado pra fora, e outro parado bem retinho tinha um que de sedutor, parecia pertencer a um cara muito seguro e ao mesmo tempo irônico, simpático e decidido. Assim que ele se aproximou, deu pra sentir um perfume bom, algo amadeirado, sutil mas com toques apimentados, um cheiro bom, fraco mas presente.
Estevão se encolheu ainda mais, segurando com força o braço do amigo que o protegia da chuva. Apertou o botãozinho no cabo várias vezes, e dava de ouvir o barulhinho simpático da mola, tentando acalmar o seu dono.  Abaixo do tecido do guardachuva, duas bochechas ficavam muito vermelhas, caracterísctica que ele achava hedionda por denunciar seu nervosismo aparente.

O ônibus chegava. Enfiou a mão nos bolsos pra pegar o dinheiro da passagem, e as moedas voaram pelos ares, zunindo felizes e brilhantes com a premissa de um banho geladinho nas poças que se enchiam de ondulações. Ficou ainda mais nervoso ao ver aquelas pernas se dobrarem levemente, e duas mãos grandonas se moverem para dentro das poças pra pegar as moedas fujonas. O garoto fechou os olhos apertando-os com força. O homem tocou-lhe o braço, oferecendo de volta o dinheiro perdido.

Num ímpeto, abaixa o guarda chuva e cheio de coragem, fita o homem nos olhos. Esses, não existem. Nem olhos, nem nariz, nem mesmo uma boca. Apenas um borrão onde um sorriso era visto com dificuldade.
__Tome cuidado -  ele fala e se vira pra subir no ônibus. Estevão fica lii, com a chuva caindo no rosto, sem saber o que fazer. Sem saber o que pensar. As gotas se evaporando no calor daquelas bochechas rosadas.

Sabe o que são sonhos recorrentes? Aqueles que se repetem ou que continuam, como numa história em capítulos. Os sonhos recorrentes de Estevão são sempre iguais, nesse momento perdido no tempo que aconteceu a um tempão já. Se arrepende de não ter olhado pra o dono dos sapatos, de não ter aberto os olhos, de não ter visto se se eram lisos aqueles cabelos, se era negra aquela pele, se eram puxados aqueles olhos. Sempre sobra esse pedaço, como num filme velho que mofou e não tem restauração.
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ferin

Ao mar

O meu amar é um amar sem tempo.
Um amar sem medo de parecer bobo, um amar tão bobo que dá medo.
Um querer doído que dá voltas em torno de si mesmo com mil espinhos que se espinham em cadência ritmada. É crescente e decrescente, é onda do mar que sobe e desce, que enche a terra de espuma pra depois deslizar levinho, acariciando a terra que se enche de furinhos.
É um amar que esquece de ter medo, igual criança novinha que se pendura na sacada da janela, e não sabe o tamanho da queda que pode levar. Que volta a se dependurar e cada dia sobe um tiquinho pra chegar mais perto do telhado. Mais perto dos passarinhos. Mais perto das estrelas.
Meu amar é assim grande e assim pequeno e ele é gigante que não cabe no mundo mas consegue caber numa pessoinha tipo eu e ficar lá esperando pra sair eventualmente. Pra fazer o coração bater de um jeito desengonçado tipo pipoca no fogo.
É assim, bem simples de um jeito bem complicado. Felizmente, complicado.  
ferin

A criaturinha nojenta...

...insistia em pousar no nariz dele. Estava muuuuuito calor. A janela, aberta para refrescar, era inútil, a cortina permanecia imóvel como que caçoando da cara dele.
Mal levantou a mão, a mosca voou pra longe e retornou em zigue-zagues, desempenhando a função de toda mosca profissional: ruídos contínuos, irritantes, enervantes. Uma seleção músical de uma única música monótona. Não baixe pelo iTunes. Silvano concluiu que toda a existência da nojerinha voadora era irritar. Conhecia pessoas assim, odiava todas elas, mas aquela mosca conseguia ser mais irritantes que todos eles juntos. Levantou. Procurou algo pra poder esmigalhar aquela presença maligna. Pegou uma folha de papel. Com um golpe certeiro, fez a criatura se transformar numa massa escura que melecava alguns papéis da namorada.

{  }

Heitor morreu, no finzinho da tarde. Não conhecia ele direito, mas tinha vários amigos. Acidente de carro, disseram. Ficou irreconhecível, o caixão ficou fechado durante todo o velório. Silvano saiu de lá e foi ao bar tomar uma cerveja e comer umas fritas com a namorada.

{  }

Eram duas agora. Elas pousaram  na mesa, perto de uma xícara cheia de café frio de uns 3 dias atrás. A presença delas com sua patinhas se arrastando pela mesa já eram insuportáveis.
Silvano tentou matá-las, acertou uma delas de raspão que ficou se movendo pela mesa, arrastando a parte inferior do corpo pela madeira. A outra, voou pra longe, e ficou dando voltas, rasantes sobre a mesa. Com as mãos unidas, em pouco tempo matou a segunda com uma palmada na parede. Essa também ficou viva, e caiu sobre o vaso do cactus. Ele foi deitar na rede da varanda e cochilou.

{  }

Britany, estava trabalhando no porto quando o container caiu sobre suas pernas. Sofreu durante horas, presa naquele amontoado de ferro, dopada pra não mnorrer só com a dor. Durante esse período, Joel caiu de cima do prédio da mãe, quando tentava alcançar alguma coisa que estava escondida no teto da varanda.


{  }

Mais uma. Entrou pela porta quando a mãe trouxe o café, e, kamikaze, morreu se lançando nas águas ferventes e escuras daquela caneca (agora) limpa.

{  }

Beatrice caiu dentro da máquina que fervia o leite. Era um tonel gigante, e o corpo dela ficou completamente queimado. Dizem que ela chegou a cozinhar.

{  }

Pisou em cima.

{  }

A casa desabou, o teto esmagou Berenice.

{  }

Foram casos suficientes para que a dúvida surgisse na sua cabeça. Todas epssoas que conhecia, todas morreram aproximadamente na mesma hora do óbito das moscas. Todos, sem excessão, o irritavam de alguma forma. Pensou em falar com alguém sobre isso, mas com certeza iam dizer que ele enlouqueceu. Foi se tornando distraído paranóico. Faziam  dois meses que eventualmente matava uma mosca que, insana, entrava sorrateira no quarto e tinha o mesmo fim. Sabia meio que sem acreditar nisso, que ocasionava essas mortes. Ou dúvidava acreditando. Mas continuava seus assassinatos, tentando se convencer de que não havia nenhuma relação com tudo isso. "Como posso eu ser assassino, se eu nem tentei matar ninguém? Só me livrei de moscas irritantes, só mantive minha casa limpa, lonje dessas nojeiras".
Naquela tarde, era um dia gostoso de sol. A mosca pousou sobre sua mão. Ele ficou olhando-a, curioso. Se perguntando se era realmente uma vida que tinha em suas mãos, e no poder que possuía em por fim a ela, sendo mosca ou pessoa. A mosca voou até a face dele, fazendo uma cosquinha gostosa na bochecha, e tornou a pousar sobre seu dedo. Ele sorriu de um jeito meio sádico, e pegou-a entre os dedos.
"Seja quem for, você é bastante irritante. Seria interessante se não pudesse irritar mais ninguém."

{  }

No velório, os olhos profundos e roxos estavam imóveis, observando o caixão. As amigas da mãe choravam copiosamente, sem entender como uma morte tão horrível acontecera com ela. A irmã repetia a tragédia sem parar, aos prantos. De como a mulher figou presa entre as duas paredes que foram cedendo aos poucos, esmagando-a bem devagar. Deve ter sofrido durante muito tempo. Deve ter sofrido demais. Deve ter implorado pra que aquele sofrimento acabasse a qualquer custo, deve ter rezado e excomungado todas as coisas possíveis. E havia acontecido tão fácil. Um apertar de dedos e plim. Morta.

Silvano não queria falar com ninguém. Evitava contato com as pessoas. Evitava contato consigo mesmo, queria desligar o cérebro, ou arrancá-lo e jogar longe. Pensou em se matar, mas era preguiçoso demais pra isso.
Isolou-se. trancou-se no quarto e ficou vivendo do dinheiro que a mãe tinha guardado. Nunca saia de casa. Recebia ligações ou e-mails cada vez que uma nova besta alada surgia de alguma fresta inexistente e ele, babando de ódio, estraçalhava-a. Simplesmente não conseguia parar de matá-las.

Então elas pararam de aparecer. passaram-se dias, e nem sombra delas, nem um zunidinho suspeito. A princípio ficou feliz, mas não demorou pra vir o desespero. A cabeça a mil, imaginando n coisas terríveis, n consequência de não continuar o seu trabalho, sua função de pôr fim a vida daquelas aberrações. Passou a abrir a janela, ficava horas fitando a rua, e elas nem passavam perto. Deixou o lixo acumular pela casa, mas nem as baratas apareciam, nenhum inseto dava o ar da graça.

Tinha acabado de comprar o celular. Abriu o aplicativo, os rostos foram surgindo na tela, homens e mulheres de todos os tipos, categorizados pela proximidade. Com um movimento do dedo, ia  aprovando todos eles sem seleção. Não demorou muito para que o app lhe avisasse que alguém também tinha gostado dele. Era um homem, eduardo e morava ali perto.
Podia jurar que tinha ouvido uma mosca, voando ao longe, com seu ruído maravilhoso.


ferin

22.00

Era um sol quentinho, de um dia frio. Haviam olhos muito brilhantes, muito escuros bem abertos, iluminados. Um sorriso se abriu. Mãos o tocaram, e esse rosto deslizou por aqueles dedos, os olhos fechados, a respiração aumentando devagarzinho. Haviam lábios escuros que se iluminaram da mesma luz que se esparramava pelos lábios do outro, que faziam reluzir seus dentes entreabertos. A luz escorria em calor pelos rostos que se afogueavam, pelas linguas que se entrelaçavam, pelas mãos que serpenteavam pelos corpos, que pressionavam, que afagavam, que se deixavam enrolar em dedos, que se apertavam. Haviam lábios sendo mordidos, haviam fiozinhos finos de sangue escorrendo pelas línguas, misturando-se a saliva. Haviam pensamentos que se esfumaçavam escorrendo dessas bocas, que subiam em vapor quente pelos ares. Os dois se olharam por um instante, e sorriram um para o outro, as mão de um no rosto do outro. Encostaram as testas e os dois rostos deslizaram, as bocas se procuraram, os beijos recomeçaram. Havia uma sensação magnética que vinha do estômago, que subia elétrica pela nuca, que se arrepiava com os dedos que se entremeavam nos fios macios de cabelo. Uma cabeça se ergueu deixando lábios lhe percorrerem o pescoço, morder o queixo, puxar com os dentes um canto do lábio, para sugar-lhe. Línguas se enrolavam. Bocas se pressionavam, com força, respirações falhavam, aceleravam. As mãos deciam encontrando áreas sensíveis, estimulando mamilos, bocas, paus. Entravam por dentro das roupas, tocavam pele quente, arranhavam, apertavam.

Olhos fechados se abriram, se miraram. Um pequeno silêncio, uma felicidade imensa. Não eram necessárias palavras, mas houve a conversa. Haviam os toques, mãos se entrelaçando em cabelos, em barbas, olhos que baixavam ao chão, ou olhavam nos olhos, conversas amenas, sérias, estranhas. Dai novos longos segundos de silêncio, e olhares que nem precisavam de tradução. Que atraiam lábios, dedos, odores, gostos. E tudo recomeçava, entremeado por frases sussurradas, baixinhas, mordidas ou sopradas de leve nos ouvidos alheios. E assim se passou tanto tempo, sem que o próprio tempo tivesse ideia do que se passava.

ferin

pó de vento

Acho que o vento me fazia balançar. Ele soprava e eu me balançava, como uma folha seca solta em uma árvore. Me sentia como se pudesse deslizar pelo chão, me enrolar pela areia e escorrer pela colina, desaguar pelo mar. Meus olhos olhavam outros olhos, vários, eles passavam rápidos, nem todos me olhavam de volta. Nem todos viam o meu balançar. Eu cantarolava alguma coisa assim, sussurrada enquanto meus pés tocavam o chão de pedra apenas com as pontinhas, tateando no escuro de olhos que preferem não olhar pra baixo, ou para cima, ou simplesmente não olhar. O vento soprou com força. Corri pela estrada, rápida, girei sobre meu corpo, saltei pedras, fui até o rio. Parei. Olhei pras águas paradas, pro fundo lodoso, pros galhinhos que boiavam desgovernados pela extensão úmida de um rio da minha vida. Molhei a ponta dos dedos. Toquei meu rosto, afogueado, transpirante. Fechei os olhos e respirei fundo. Respirei o ar gelado, limpo, o ar concentrado dos meus arrependimentos. Deixei ele se espalhar pelos meus pulmões, e voltar com força pelas minhas narinas,  dispersando-se no ar azulado de um início de dia. Me joguei na grama, olhei o céu que começava a clarear, os pássaros que me carregavam pra longe em suas asas preguiçosas, que podiam fazer a minha mente voar pelas nuvens, sem lugar pra parar, sem lugar pra chegar. Agora sem lugar nenhum. Virei de lado. Haviam insetos que se arrastavam pela grama, formigas, joaninhas... Sentei. Bocejei. Meus olhos molhados se tornaram outro rio, fininho, escorrendo pelas pedras duras, encontrando-se no mar das minhas bochechas. Solucei. Sorri. Deixei a cabeça pender até o peito e virei-a meio de lado, os cabelos sobre os olhos, colados numa testa franzida e cheia de receios. Me levantei. Corri de novo. Corri pela grama, corri pela areia, corri pelo asfalto. Corri pelo mar, corri pelo céu. Envolvi estrelas com meus dedos, espalhei um céu cheio de ressentimento em cima de núvens clarinhas que viraram um redemoinho de soluços, uma profusão de enjôos e náuseas. Girei no meu próprio eixo, rodopiei em círculos sem sentido, sem forma, sem padrão, deixei minha cabeça se enrolar num novelo, uma massa toda embolada de coisas, de sentidos, de nada. Com os dedos entre os ramos que saiam das minha orelhas, puxei raízes fundas, que sangrentas se desfizeram entre meus dedos. Olhei pro vento, de um rosado profundo que se fundia a um laranja luminoso, se estendendo pelo firmamento cheio de luz, voltando em fitas onduladas pelo meu corpo, sufocando, apertando e se rasgando em fios finos e descoloridos, que cairam aos meus pés. Respirei novamente, foi profundo, foi demorado. Ergui a cabeça pra ver um céu sem lua, uma noite escura cheia de medos. Juntei tudo aquilo, esticando meus braços longos, encobrindo todo aquele país que eu contruíra pra mim, e agora desabava fácil ao sabor de ondas calmas e brilhantes. Com água e areia, contrui entre meus olhos um castelo cheio de torres, tão bonito que deixei minha mente morar lá dentro. Então, sentei olhando o mar transparente, e deixei as ondas desabarem o meu corpo e arrastarem  em espuma pra dentro de outra pessoa. E lá fiquei.