Estou Lendo Ficção de Polpa , também da não editora. Legal ler coisas de nomes até então desconhecidos pra mim. uma série de contos de ficção e/ou horror de vários autores, com um preço mais baratinho que as L&m pocket. Ainda não terminei pq estou fazendo em doses homeopáticas entre os trabalhos de TGI e falarei aqui dos contos que mais gostei LOGO. EEEEEEEEEEEEEEEEEEEE
- Location:Brazil,Navegantes
Carne trêmula. A frase ainda trêmula nos meus lábios, sonora, repetindo as sílabas. Trê. Mú. Lá. Um filme, um livro, parte de uma poesia. Uma junção de palavras que me veio com o vento, esgueirando-se por bocas alheias e navegando no meio dos outros barulhos. Uma voz feminina, mas grave, como de uma cantora de cabaré.
O “carne” tinha sido pronunciado com uma prolongação, como em arara ou saíram. Era carne, não com o erre rouquinho das francesas, mas com o erre firulento dos apresentadores da rádio antiga. Houve uma risada na sequência, mas não uma risada de graça a uma anedota, mas aquela risada que as moças ainda esboçam quando tratam de segredos. De coisas proibidas, de coisas impensadas.
A “Carne Trêmula” e a risada vieram de algum ponto entre os muitos bancos daquela praça, ou mesmo da grama verdinha daquele dia nublado e ventosamente frio. Talvez de um lábio somente, talvez de dois. Talvez não tenha existido. Talvez a frase fosse outra. Mármore frêmita. Cofre Estrela. Barney e Sêmola.
O importante de tudo não era a frase mas o vento. O vento que uivava agourento uma chuva feia que daí viria, e fofoqueiro, vinha a trazer os ditos dos outros, fazer confusão. Anunciar uma tempestade que romperia com as conversas roubadas, tornando impossível os diálogos, enchendo o ar de cheiro de terra úmida e barulhos pra dormir. Pensei se o vento me escolhera a frase do biscoito da sorte, para que eu refletisse sobre a vida, sobre o mundo.
E senti novo ventinho gelado na espinha, a ultrapassar os limites da blusa de lã pelos malditos buraquinhos. Carne Trêmula. Há.
- Location:casa
- Mood:
chipper
___Bonita pai.
___Gostosa rapaz!
___Gostosa?
___Isso!
Em casa, minha mãe ficava "fula". Uma criança não deveria falar aquelas safadesas. Lembro que quando ouvi a palavra menstruação a primeira vez louco que era pelo significado de tudo, perguntei insistentemente o que significava. A Mãe irritada dizia que eu não tinha idade pra saber. Eu nunca tinha idade pra saber de nada. Com pouco mais de seis anos tive um sonho com uma menina nua, e ela me convidava a fazer coisas que eu não entendia. Ainda com 6, meus tios colocaram uma fita da "Branca de neve Pornô" para assistirmos, achando que era a tradicional, e lembro que não entendia porque a Branca de Neve Mulata insistia em tomar sol nua no pátio, porque ela fez coisas com o caçador pra ele deixar que ela fugisse, e porque o Príncipe que já tinha se enrolado na cama várias vezes com a madrasta ficava com a "mulata das neves" gritando e berrando em cima da cama. Era tudo estranho e eu era realmente inocente demais. Um pouco mais velho, comecei a conviver com uma menina que se aproveitava de mim para ser seu marido, ficar o dia todo no escritório e dar longos beijos de despedidada e de retorno, e fazer namoricos na cama como os adultos faziam. Acho que tive minha primeira ereção ali. Queria beijá-la o tempo todo e me esfregar no corpo dela, sem ao menos fazer idéia do que aquilo significava. Era tudo confuso e bizarro. Por algum motivo passei a notar de forma diferente a beleza das moças nos catálogos de calcinhas que deixavam lá em casa. A notar as artistas que rebolavam nos filmes e que apareciam as vezes só de sutiã. Uma vez uma mostrou os peitos, e fiquei maravilhado, e minha mãe me mandou dormir. Acho que tinha 9 ou 10 quando um de meus tios me contrabandeou uma Playboy da Isabela Garcia além de umas revistas mais explícitas. Guardava ela sob o colchã para admirar quando estava sozinho, longe do olhar inquisidor da mãe ou da avó. Nessa época, a molecada da rua tinha mania de inventar que era namorado das atrizes gostosas. Eu era namorado da Isabela Garcia, mas ninguém sabia porque. Eu tinha um amigo na rua de traz que gostava de contar histórias de sexo, que ele lia ou assistia nos filmes. Ele desenhava as posições na areia as vezes, hoje me pergunto se não se excitava fazendo isso. Uma vez falou de um filme de um homem que tinha um pau na cabeça, e comia as garotas como que dando chifradas. Nunca acreditei, mas era divertido ouvir.
Minha formação sexual foi isenta de "É o tchamzisses", mas recheada de Pornochanchada, e Cine Privé na Band, Com Emanuele que não mostrava nada. É quando você percebe que está crescendo, que está percebendo as pessoas de outra forma, e que as mulheres tem muitas áreas para se passear os olhos, apesar de eu sempre ter sido muito sútil nessas observações. Depois que você começa a conhecer pessoas, começa a entender a necessidade de uma cabeça que se encaixe naquele perfil todo, de uma personalidade que você não queira se livrar depois de uma noitada, e de como é bom ter aquela coisa de cumplicidade, aquele clichezão bom que os relacionamentos trazem e que o tempo vai tranformando. Você nunca imaginou quando tinha 13 anos e batia punheta frenéticamente pensando nas musas de lingerie (ou sem nada) que ficaria todo bobo vendo a namorada ,vestindo seu camisão velho como pijama e dançando AC/DC em cima do colchão, com o sorriso mais besta do mundo.
Não sei quanto tempo fazia que tinha pegado no sono, com um exemplar de “A vida como ela é de um lado da cama e um de “porquê ler histórias infantis Brasileiras” do outro. Tudo começava daquela forma direta e sutil com que começam os sonhos. Havia muita bagunça numa casa, que talvez fosse a minha. Íamos viajar, haviam malas por todos os lados, de todos os tamanhos. Eram empacotadas verdadeiras trouxas gigantes de coisas. Minha namorada, a Ruko insistia em me chamar para arrumar nossa mala, e queria levar uma quantidade gigantesca de perfumes dentro desta que provavelmente seria carregada por mim. Pedi que ela não levasse tantos e ela tentava me convencer de que todos eram necessários. Saí com um primo, o Leonardo e botei na cabeça que deveríamos levar um banquinho, que ele seria imprescindível. Reviramos algumas mesas, procurando o melhor para levar, e na cena seguinte eu estava no meio de uma espécie de shoping gigantesco, tipo aqueles de Brusque a perder de vista. Tinha bilhões de tipos de lojas, elas faziam curvas sinuosas e bizarras para vários lados. Ao meu lado estava uma amiga, a Pajeh, que resolveu sair para ver as lojas comigo. Vimos que na seção em que estávamos, haviam muitas lojas de caixão, e as pessoas experimentavam sorridentes caixões negros com bordas douradas, era bizarro até pra mim no sonho. Chutei uma corrente com um símbolo pagão quebrado, peguei e botei no bolso, tinha umas pessoas estranhas mais a frente. Andando um pouco, parei em algum lugar e subi num muro. Um homem mais novo com aparência estranha, com roupas meio cafonas estava com uma mulher mais velha de olhar irônico, ambos tinham jeito do inteiror. Eles olhavam pra nós e cochichavam. Abri meu Noteboook para tentar dar uma olhada em algumas coisas, e ao entrar no Twitter, vi que eles estavam me seguindo (as fotos deles estavam enormes na tela inicial), e haviam deixado mensagens, os dois. Olhei pra Pajeh, e debandei na mesma hora. Fui em direção ao banheiro. Chegando lá tinha umas duas pessoas e chegaram duas depois de mim. Havia uma mulher sentada em uma mesinha, e ela mandou eu ir pro fim da fila. A fila havia aumentado um monte e eu falei com ela que as pessoas chegaram depois de mim. Ela estava sentada ao lado de outro cara, e tinha um olhar irônico no rosto:
___Fim da fila. Por favor.
Insisti que eles chegaram depois, mas fui pra trás deles. Ela insistiu: “pro fim da fila”, queria que eu fosse pro final de uma vez! Levantei e perguntei se ela queria que eu deixasse um espaço pras próximas 5 pessoas passarem na minha frente, e ela sorriu pra mim e em seguida pro cara ao lado. Mandei ela tomar no meio do cu dela, e recomendei que trepasse, e saí indignado do local.
Acordei com a bexiga doendo e corri pro banheiro, realidade como extensão do sonho talvez. Ri, claro.
O som daquele beijo, baixo assim, bastou para deixar mudos todos os outros sons. Ficou único e perfeitamente audível. Um pouco estalado, sorvido de leve, com um toque de ansiedade breve.
Estavam fechados os olhos dos dois, como que a aguardar algum sinal externo de que aquele momento já tinha chegado ao fim, que alguém precisava ir embora, erguer-se, desamassar as roupas, reorganizar os pensamentos e dar o fora dali. Os milésimos de segundo que duraram o toque daqueles lábios agourentos, antecipadores de despedida, pareceram querer dilatar-se para engolir átomos e mudar alguma fórmula relativa e estenderem-se por todo um tempo maior, mesmo que pouco, um tempo suficiente, mesmo que nunca o fosse.
Ela foi quem se levantou. Desajeitada, derrubou parte do conteúdo de um copo de chope que repousava a frente dele, a poça úmida escorrendo pelo balcão sobre a calça dele, ela nervosa. Nada disso tinha mais importância. Ela desculpou-se, trocou uma ou duas meias palavras, ditas de uma forma rouca e desnorteada, e ele concordou com todas com meneios de cabeça, mesmo sem ter compreendido qualquer uma delas, a voz presa na garganta, embargada pelo álcool e lágrimas curtidos numa mistura cáustica que o fazia pigarrear. Ele podia sentir o cheiro dos cabelos dela dali, se ajeitavam de leve, enquanto ela passava os dedos entre eles, aflita, estranha. Ela caminhou a passos duros até a porta, tentando manter os olhos avermelhados em pontos fixos aleatórios, distantes da direção dele. Ele ergueu a mão para pedir outra cerveja, um sorriso pálido, costas retas, expressão austera. Ela ergueu o braço para chamar o homenzinho do taxi, que não parou, claro. Os olhos marejados e claros, continuavam fixos e duros. Ela mordeu o lábio com força até arrancar pele, até o sangue escorrer da ferida. Ele enfiou as unhas na madeira até senti-las a ponto de soltarem-se, embranquecendo-se com a falta de circulação. Encostou o punho fechado na cabeça, apertando-o contra a testa, olhar fixo no copo, uma marca vermelha e profunda de dedos , avermelhada e reluzente .
Na rua, Bartolomeu acendeu o cigarro dela, isqueiro em punho, a chama surgiu do nada como sua presença, sorrisão largo no rosto. O dele.
No bar, Dorotéia, paixonite dele da adolescência e garçonete mais boa, deu-lhe bola. Achou-o sensível, um home chorando e talz. Queria um desses, ela teria dito. Conseguira arrancar um sorriso.
Se encontraram exatos quinze minutos e cinqüenta e três segundos depois, no ponto de ônibus em frente a igrejinha onde ele a levava todo final de semana, onde ficavam juntos até que o ônibus dela chegasse para levá-la pra casa da avó. Isso foi antes do apartamento, de morarem juntos, e dos planos. Sentaram-se um ao lado do outro. Conversaram. Relembraram. Riram. Ela pediu um abraço. Ele deu.
Atravessa então a calçada molhada, equilibrando-se no meio fio como o equilibrista na corda bamba. O vento soprando frio no rosto muito pálido de doente, o narigão-pimentão. Os barulhos dos carros parecem gargarejos. As pessoas parecem gorgolejar enquanto falam e tudo é leitoso e denso. Ele desequilibra-se na parte mais difícil, a grande poça de lama escura que reflete sua própria expressão de cantarolante. Alguns minutos e mais equilibrismo e pára um pouco para respirar, garganta seca gelada de ar de tarde chuvosa. Inspira. O ônibus é cruel. Aproveita-se da distração para passar em alta velocidade próximo de mais do meio fio, fazendo um túneo de vácuo assustador, tirando um fino do ombro, fazendo o sujeito sobressaltar-se e fazer xingamentos profanos, xingar o papa, o bispo, a mãe do motorista (por último). Expira.
A noite, após um sono mais que justo e repentino, esfrega os olhos e, coçando-se em barulhinhos de pijama, liga a luz do banheiro que sabe que está com defeito, e fica observando-a piscar como numa danceteria, laçando fluorescência pelas paredes e fosforescendo a pasta de dente de mentaplus com micropartículas, iluminando as escovas a voltar suas cabeças cheias de afetação para a direção contrária, iluminando de relance o garoto descabelado que andara tendo crises de ideias durante o dia.
Antes de todo o sono e drama, teria ido até o teatro, encontrando-o fechado, um aviso gigante de que não trabalhavam nas segundas. Escolhera uma segunda. Trabalhavam nas terças, nas quartas, nas quintas, nas sextas. Há! Sábados! Mas naquele dia fatídico e soturno, nada de ingressos de meia entrada para pessoas de compleição inteira. Era um fato. Havia um telefone para ligar para informações, e uma comitiva de orelhões que não funcionavam pelo seu caminho de volta ao trabalho. Ah, sim o trabalho. Acotovelamentos e atendimentos. Pessoas corteses, pessoas descorteses, pessoas odiosas e pessoas cômicas. Pessoas que se faziam de desentendidas, pessoas que se mostravam muito entendidas, e até queriam se fazer entender a força. Todas encotravam a mesma expressão, o mesmo tom de voz monocórdio com as mesmas palavras pronunciadas da mesma forma, fita de secretária eletrônica acionada por um botão invisível. Retirar? Devolver? Sim. Não? Boa noite. Bom dia!
A noite, após o episódio da lâmpada escarnificadora, acordou várias vezes. Deitado de barriga pra cima, o edredon a cobrir-lhe parcialmente, apesar do frio, a boca aberta compenetrada. Fitava o teto a procura de uma mancha em formato exótico, que lhe inspirasse a contos excêntricos de viagens mirabolantes a grande Àfrica Setentrional, talvez no lombo de elefantes selvagens e o ataque de indígenas antropófagos o levasse até a descoberta da estátua de uma divindade profana desconhecida, Mishtrars, a que não dorme. Talvez encontrasse próximo a extremidade, um relevo em forma de duna, que inspirasse a um encontro na praia, uma crônica de dômingo com uma família farofeira e suas desventuras complexas ao enfiarem toda a tralha mais as crianças em um carro e partirem para uma praia do litoral de Florianópolis, e os problemas de um pneu furado e uma "boa alma" mal intensionada no meio da estrada que surge com um cutelo para ajudá-los. Mas o teto, azul e liso, sereno e dormente não mostrava-se convidativo nem inspirador. Não lhe deu leões, nem homens armados e nem mesmo contos de boteco. Insistiu em tentar dormir.
Acordou com o sol açoitando a cara, todo torto, dedos dormentes, marca de baba que escorrera-lhe do canto da boca, seco, que esfarelou-se assim que ele esfregou a face num suspiro de dorminhoco. Era cedo, e a posição estranha que dormira sobre o notebook, por não ser um ginasta especialista em alongamentos, custava-lhe nos momentos alguns "ais" sonoros. Na tela, um título, que não lembrava de ter escrito, centralizado, todo em letra maiúsculas imponentes. Talvez não tão inovador, mas com algo de petulante, algo de novo-velho, até cotidiano. Uma mistura de muitas coisas, boas e ruins, um nó na garganta ao passo que era ilustrativo e até infantil, dependenddo. Um pontapé pra uma boa história, talvez mais de uma. Poderiam passar dias utilizando conceitos filosóficos para explicar aquele título que era mais profundo que a garganta do Zaratustra. A tecla do backspace agiu rápida. Fechou a tela. Dormiu despreocupado.
- Location:em casa
- Mood:
blah - Music:Swades - A.R. Rahman
Faz algum tempo que o celular me põe pra fora da cama, tocando rammstein insistentemente. Após duas vezes apertando a tecla soneca, me obrigo a levantar de lá aos trambolhões. E lá estou eu, com ele em punho, a checar as horas durante todos os procedimentos: Banho, café, escovação de dentes,enfiação de tudo quanto é necessário e desnecessário na mochila, correria até o trabalho. E no caminho, vou ouvindo alguma coisa de algum podcast que baixei na noite anterior e enviei via Bluetooth do notebook pro celular ou alguma mp3 que minha namorada botou pra ouvir o final de semana inteiro a ponto de eu querer ouvir mais algumas muitas vezes. E torno a ver as horas, pra não me atrasar pro almoço, nem pra van que me leva pra faculdade, nem pra voltar de van, nem pra não demorar no intervalo. Lá vamos ligar pra casa ver se tá tudo bem, ligar pros amigos e combinar coisas, ser encontrado pelo povo do trabalho para fazer alguma coisa urgente, mandar mensagens saudosas pra minha guria lá de longe, na expectativa da vinda dela pra perto logo, ligar, receber ligação. Essas coisas que não existiam quando nos pendurávamos nos cipós verdinhos e que agora fazem uma puta falta. Aí você compra aquele celular, da Sony ericson, marca que está acostumado, que gosta e talz. E Ele pifa, já nas primeiras semanas. Você não tem mais indicações de nada, se atrasa. Não te acham pra nada. Não consegue marcar nada. Não consegue ser avisado de imprevistos, não ouve música, não consegue mais manter contato com a garota que gosta, que tá lonjão. Um caos, que vai se estendendo enquanto o negócio não tem solução. A loja joga a culpa na empresa. A empresa diz que conserta, e manda de volta igual.E demora, e demora. E você cada vez mais aflito. Vai comprar outro celular pra esperar o seu ficar pronto? Alugar? Catar? Não sei. Sei que sobrou tempo talvez pra observar a fumaça e ouvir o ruído estrondoso da cidade acotoveladora. A grande corporação manda novamente esperar, “sua preferência é muito importante para nós.” Mensagens eletrônicas, autômatos cheios de gerúndios, colocando você em padrões de círculos e cones, e insistindo em tentar te encaixar um triângulo. E você esperando. Ainda.
***
___Então não lembra de nada.
___...
Ela mordeu o lápis impaciente. Ainda esfregava o pulso arrouxeado, forçado pelo segurança que viera com ela na van, removendo-lhe dolorosamente a esperança de usar o gravador que guardara entre os seios num compartimento secreto do sutiã. Foi impulsiva, se deu mal.
___Olha, eu não gosto de perder meu tempo.
Ele ergueu-se. Foi até a sala, dando-lhe as costas, devagar. Sentou-se ao piano. Acariciou as teclas passando os dedos pelas extremidades,lentamente.
Ela foi atrás, enfesada. Queria dar-lhe uns tabefes. Os três primeiros acordes, decididos, fizeram-na saber qual era a música, na mesma hora.
***
Ela estava linda, em seu vestidinho azul, e em sua meninice de dez anos. Era um sorriso maior que o mundo, e uns cachinhos de boneca alemã. Não parava quieta no colo da mãe. Queria dançar a Moonlight Sonata balançando-se, correndo e fazendo movimentos de princesas em reinados, como fazia em casa. Mas o fato de aquele ser um concerto do pai, reforçado pela cara de "não faça isso ou..." da mãe eram suficientes para manter sua bunda sobre as pernas da mãe. Os caracóis rodopiavam no ar enquanto os olhinhos castanhos acoompanhavam as mãos sobre as teclas. Foi assim que ela que notou as lágrimas nos olhos do pai, e a forma como crispavam-se suas mão, tremendo lentamente. Foi ela que notou que ele sentia dor, ee que ele se esforçava de uma forma estranha. Ela que sabia decor os movimentos daqueles dedos. E foi ela que gritou alto quando ele finalizou a canção, a lua imensa iluminando a negrisse dos cabelos e do piano, e o corpo que caia estrondoso sobre as teclas.
***
Ficou imóvel ao lado do piano. Não demonstrou qualquer emoção, senão uma petulante expressão de desprezo. Mas dentro de si, em si apertava-se a garganta e forçavam os olhos a lacrimejarem. Ao voltar-se violenta foi-se ao chão um vaso. Ela olhou-o. Ele parecia em transe. Ela abaixou e começou a juntar os cacos. a cabeça forçava pra baixo, pensamentos e angústia. Levou os cacos ao lixeiro e viu que havia uma xícara de café preto fumegando. Pegou.
___Não.
Ela voltou. Ele continuava tocando.
___Não o que?
___Não lembro.
- Music:Moonlight Sonata
Ele achava que a culpa era da Verônica. Era e não era. Talvez dele mesmo, ou não. Ela tinha sido sacana, mas pra isso ele teve que ser sacana antes. Teve que parar de ouví-la. De fingir, de prometer, de jurar sem ter a menor vontade de cumprir. As coisas estavam uma merda mesmo. Meio que tinha que ser. É. Tinha.
Estava sentado na varanda. Era uma casa grande, colonial. um Matão. Tinha árvores por todo lado, um sol brilhante da porra, um lago limpinho, patos, passarinhos. Um Verdadeiro inferno pro Gilberto. Gilberto era ele claro. O garoto estranho, cabelos desgrenhados, cumpridos, olhos chateadamente negros, que observavam a tudo por trás das lentes do óculos azul, com um olhar distante, perdido entre contelações caóticas. Distraído. Tinha um andar esquisito, meio arrastado, meio preguiçoso. Branco de falta de sol. pegara algumas queimaduras com aquele sol tão perfeito pra torrar as pessoas. Lia desesperadamente, mas negaram-lhe os livros. Todos.
Engordara uns 3 quilos de não ter nada pra fazer. Quando não estava nas palavras cruzadas, ou inventando gororobas pra comer, estava lá, na varanda tomando café eternamente. Comendo queijo e pão. E Maionese. e Café. A única coisa que fazia razoavelmente era café. Instantãneo. Batia o pó com um pouquinho de leite e açúcar até espumar. Depois metia a água quente. Verônica que ensinou, mas o dela era bem melhor. Olhando desanimado o verde que nunca se acabava, mordeu o canto das unhas, tirando um bife sanguinolento. Já não tinha mais unhas e os dedos já machucados sangravam pela insistente mordição em busca de restinhos. As vezes cantarolava. Assoviava sinfonias de nãnãnã, Bethovens e vivaldis alegrinhos. As vezes parecia que os pássaros o acompanhavam. Lorota!
Porquê não podia nem mesmo ouvir música. Um rádio, sei lá. Um toca fitas. Não, eles não deixariam.
Quase sempre durante os cafés solitários, arrastava a chave da casa no tampo de madeira da mesa, desenhando diagramas. Riscando circuitos. Matutando. Fazia diagramas complexos com gravetinhos que as aves ciscavam e alteravam. Caos. Que merda.
Tinha levado algumas bicadas dos gansos que chutou na manhã daquele dia, não aguentava o barulho que faziam, não o deixavam dormir. Ainda não conseguira acertar o sono, acostumado com as madrugadas, com o sono diurno. Odiava tudo aquilo. Sua penitencia, oitocentas milhões de Ave-Marias ecológicas num paraíso Caipira. Merda. Merda!
As vezes ficava olhando atento através das árvores, com a impressão de ter descoberto uma câmera, um binóculo. Por onde os filhos da puta ficavam espionando? Big Brother de uma pessoa só. Vendo ele cagar. vendo ele mijar? Saco.
Naquele dia, notou que havia alguma coisa que se aproximava. Um veículo. Vinha por uma daquelas estradinhas de barro baita ruins, levantando poeirão. Uma van, sei lá. Não era o povo que trazia a comida, eles eram diferentes. Parou na cerca de arame. Alguém abriu a porteira. O carro entrou.
Os olhos fixos, o sol refletindo no óculos, atrapalhando a observação. O Carro chegou. Os dedos sangravam, gosto de ferro na boca. Ajeitou o óculos, estralou os dedos. A porta abriu. Ela era toda cachos e sorrisos. Mas ao olhá-lo não sorriu. Foi Séria.
Apertaram as mão, os vultos contra a luz de um sol que ameaçva se por, acabando com o inferno de sua presença. Caras de colete cinza foram retirando parafernalhas do carro, e dois policiais bem mal encarados e resmungões deram-lhe o olhar de "cuidado ou atiro no seu cuh". Simpáticos.
___Quem são...
___Quero saber tudo sobre o assasinato. Começe.
E ela ligou o gravador.
- Location:Casa
- Music:Three Days Grace - Wicked Game
Tinha a mania de tomar banho sentada. Levava todas as coisas necessárias para o chão com ela: Xampu, condicionador, sabonete, esponja, gilete... um verdadeiro arsenal. Enchia os cachos com xampu especial, e cobria a cabeça com espuma suficiente para o corpo todo. Durante o enxágue, com os olhos apertados, esfregava as mãos no rosto. Deus abençoe os xampus que não ardem nos olhos. Na sequência, enchia os cabelos do condicionador com cheiro cítrico e esfregava de leve o nariz. Um ritual. Enquanto a química maligna e acondicionadora agia no couro cabeludo, enchia as pernas de espuma obtida pela fricção quase insana do sabonete molhado nas mãos.
Nesse instante o celular começa a tocar. Em outra ocasião estaria cantando algo dos beatles como "Blue Jay Way" ou algo ainda mais desconhecido enquanto raspava as pernas em movimentos uniformes e perfeccionistas, mas com o som estridente do celular tocando "Ring of Fire", ela teve que mudar o repertório. Paciente, continuou a raspar-se. Pegou o Chuveirinho e mandou pelo ralo, literalmente, toda a espuma e pelos, e continuou a ensaboar-se em várias outras partes. Cobriu os seios, ensaboou a barriga e o púbis e deu uma risada quando o jato morno do chuveirnho atinjiu-lhe. Riu-se duas vezes. Desligou o pequeno e o grande volou a soltar água com força. Tirou o resto do condicionador da cabeça. Ainda sentada, e ainda cantarolando Ring of Fire, visto que o celular recomeçara a cantoria pela terceira ou quarta vez, desligou o chuveiro e enrolando todos os cabelos numa mecha gigante, jogando-os para a frente da cabeça, passou-lhe as mãos, apertando os fios até as pontas, tirando o excesso de água. Ficou ali cantarolando a música, mesmo com o celular agora mudo. "Deve haver umas 70 ligações não atendidas no visor", pensou-se. Continuou paciente com o trabalho. Ergueu-se. Pegou uma toalha, branca, com a qual enxugou devagarzinho os pés, entre os dedos, depois as pernas, embaixo dos braços, as mãos, os seios, o rosto. Enrolou-se. Esfregou o espelho embaçado com as mãos, fazendo um barulhinho irritante com as unhas, que provocou-lhe calafrios. Secou os cabelos com cuidado com a toalha laranja. Era uma toalha tão laranja que acreditava piamente que brilharia no meio de um apagão. uma mentira deslavada, claro.
Deixando a toalha de lado, cobriu a mão de creme, e escolhendo algumas mechas ao acaso foi separando cachinhos e passando-lhe o creme até as pontinhas. Fazia caretas no espelho durante o processo. Suspirou-se.
O resto deveria ser rápido, como de costume. Roupa já escolhida, maquiagem bem básica, café intantâneo bem forte, uma torrada com manteiga entre os dente e uma pasta imensa. Câmera. Cadernos de anotações. Um gravador. O telefone estava tocando novamente quando lembrou-se dele sobre a mesinha da sala. Voltou. Atendeu.
___Indo.
___O carro já tá aí em baixo.
___Que carro?
___O que vai te levar pra ver ele. Hoje.
(continua)
- Location:Minha casa
- Music:cara estranho - Los Hermanos
Idiota. Ele olha a minha bunda, bem como eu queria. Quanto tempo mais pra me fazer uma proposta? Vai querer que o chupe, como ele imaginou. Vou me abaixar, assim, mostrar a calcinha. Ele deve estar louco, de hoje não passa. Vai me levar pro banheiro dos guardas, lá só eles entram. ele vai querer me enrabar. Tenho certeza.
Eu vou lá. Ah meu Deus, baixou de novo. Tá fechando a loja. Caiu a chave. Pai do céu...
Anda cretino, vem que teu sonho vai quase virar realidade.
Eu falei. falei que ia ajudar, e ela sorriu. pego a chave e toco de leve na perna dela. de leve. Ela reagiu, sorriu. Meus pelo arrepiaram, o pau estaquiou. eu pagava muito pra comer essa puta.
Como ele é patético. Mal tocou no meu tornozelo e ficou de pau duro. Fica tarando a minha xana, não desvia o olho. Passo a mão no pau dele, assim de leve. Não, não, passo no braço, vai desconfiar se eu for oferecida. Vou sorrir. ele não para de olhar o decote, não posso ficar constrangida. Queria ir pra um lugar mais ... o que eu vou falar? Um lugar calmo. Mas tenho que deixar claro que não quero sair.
Ela quer sair? Um restaurante, um barzinho? Que merda, queria comer ela aqui. Pego na mão dela, isso... Perguntar onde a vadia quer ir, ah, eu comeria ela aqui mesmo. Onde ela quiser, se me der essa xana. Ai, meu pau...
Que idiota, quer me levar pra sair. Ele não entendeu, quer que eu desenhe. Desenho no peito dele, vou falar que quero que me foda aqui. Mas não assim, tenho que dar uma de pudica. Isso, um lugar mais calmo por aqui. Dizer que naum aguentaria ir longe.... Ele ainda pergunta porquê, o filho da puta. Vai dizer que não sabe, né. Tá jogando o meu jogo. O trocador dos guardas? Vou me fingir de surpresa, he, panaca!
Cara, eu não acredito, ela quer me dar. Acho que ela me dá até o cuzinho, essa moça tá em ponto de bala. Ah, quase pegou no meu pau, vou levar ela pro quartinho. Topou! Cara, hoje vou me dar bem, e logo com a dona gostosa. Levar ela na salinha, tem o sofá, tem doce, e vai ter foda! Há, há, eu sou demais.
Esse é bem o caminho. Eu me lembro vagamente. Ali a salinha, ele abre a porta. Passa a mão na minha bunda, vou fazer cara que gostei. Me empurra contra o armário, quer arrancar minha calcinha. Lá está a mesinha, e atrás o quadro. Levanto o quadro e finjo surpresa, tem algo lá dentro, um fundo falso. Ele se assusta, puxo o colar. Coloco no pescoço, sinto a aura que emana dele. Ele acha estranho mas...
Ela levantou o quadro e tinha uma parada com uma pedra que brilha, e chegou e colocou no pescoço. Não acho boa idéia, deve ser do chefe, mas ela me puxa e encaixa gostoso. Minha calça quer explodir eu vou apertar os peitos. ela tá gemendo... Isso é mentira.
...acontecendo exatamente como eu queria já sinto a pele dele. Ele se despiu, tiro a roupa com rapidez. A aura do medalhão me ilumina inteira, sinto o corpo ardendo em brasa. Meus olhos refletem o mundo. Meu lábios sentem o gosto do mundo. Minha mente dói em lascivas de gozo, sinto o coração palpitar, quero...
...meu peito arde, que tesão do caralho. Sinto ela rebolando quente como se fosse chama. Sinto a pele dela como se encandescente dominasce a minha, como se a mente...
...a mente dele penetrasse em meu âmago,, como se seqüencias inteiras se multiplicasse em..
...em extenções de algo mais profundo e maior, sabendo que o plano...
...do plano, o plano formado...
...o objetivo alcançado...
... o ato consumado...
...a pele, funde... eu vou...
...eu vou...
Sempre sobra pra mim. Sempre tenho que limpar a porra desse lugar. Quero só ver amanhã, esse guardas sempre trazem mulher pra cá, aí tem que ficar limpando porra por aí. Odeio isso, não sai do interior, pra me sujeitar a essa cretinice. E eu que queria ser professora, e só me fodi. Ai, não deixei a comida pra Neuzinha, quero ver quando acordar de noite, vai encher o saco de manhã. O que é isso, olha um brinco bonito, coisa de rica. Vou catar, ninguém vê. Brinco brilhante, coisa cara. Será que o Zé...
Opa, o que é essa coisa aqui no tapete? Essa gosma estranha, parece vermelha. Mas que merda é essa? Essa coisa se mexe! Parece um... Meu Deus, o que que É ISSO? Virgem, a coisa tá mexendo. Ela tá chegando perto. Deus me protege, que essa coisa tá arrastando... Meu Deus, socorro, me protege, ela tá vindo. Eu tenho que chamar, eu tenho que, ah Deus, me ajuda mãezinha, que merda, eu tenho que passar, a escada, eu não consigo, eu vou, a porta, rua, tenho que ir, a chuva, não, lá em cima, rápido, não pode, me ajuda, eu quero, não, não eu...
...
Lençóis. Amoras.
Lábios. Batom. Amora e lábios. Suor. Pele.
Toque. Carícia. Armadilhas. pescoço. Braços. Enlace.
Jugular. Lâmina. Brilho. Rubras amoras. Rubros. Dedos
incenso. Travesseiro. Abafados, os gritos. Beijo suave. Ternura.
Meias, compridas. Calcinha. Mão sobre a mesinha. óculos. relógio. Papéis. Recompensa.
Gatinhos de porcelana. Cigarro mentolado. idéias em ordem. Banheiro. Relaxante. Seios. Nádegas. Umbigo. Cabelos.Tesoura. Cabelos. Olhos. Água.
Espelho. Língua. Sorriso. Toalha. Perfume. Gotas.
Saia. Sapatos. Unhas. vermelhas. amoras. despedidas.
Saiu rapidamente dali, um véu sobre o rosto levemente ruborizado. Sentou numa das mesinhas para o café e tomou lentamente um copo de suco de laranja, manchando o copo com o vermelho dos lábios. Ao tocar de leve a cinta liga, a arma disparou repentinamente, manchando-lhe a cashimira branca. Caiu sobre o breakfest lentamente, mas com muita classe. Em menos de cinco minutos a mesa estava pronta para o próximo.
- Location:House
- Mood:
bitchy - Music:Twenty Two Fourteen - Album Leaf
Quem não acredita?
Enquanto berrava, algumas notícias desatrosas passavam no notíciário da tv do bar. E o público agitava-se imune as más notícias, concentrado no rock,n roll. Enquanto alguns copos balançavam-se e pontos luminosos acompanhavam os acordes estridentes da guitarra, algumas outras cabeças desfocadas, balançavam-se acvompanhando os urros e os movimentos de mãos. Copos batiam-se cerveja escorria pelo palco, e as mocinhas esfregavam-se com vozes sussurradinhas e sensuais. No bar, sonolento, um homem desperta e observa admirado o povo balançando-se. Surdo, ele sorri e junta-se ao povo que o acolhe em balanços de cabeça e berros, sendo lançado pro alto em desvarios. E assim segue-se a noite, quase que sem fim.
Saindo a rua, olhou novamente a foto das filhas. Rasgando-as, lançou-as no lixo próximo, rindo-se enquanto pensava na próxima história que inventaria pra beber de graça no próximo bar. Era escritor o maldito, mas sua história se apagava nos copos de cachaça dos bares. E assim foi.
A simples questão matemática exige uma lógica abstrata, e os sentimentos da caixa remoem-se procurando encaixar-se em sequências lógicas diante do sorriso magnânimo que se estampava claramente na sua mente. uma menina canta, outra dança, como um copo rachado, uma página amarelada e um sorriso arrependido de desculpas. E um homem atira-se noite adentro para tomar um copo de cerveja num bar desconhecido e semi-destruído, com putas arrastando-se em seus tornozelos na pretensão idiota de que fosse rico ou algo assim.
Putas, vódka cerveja, o sorriso amargo, agora docinho de cereja em lembranças rápidas e satisfatórias.
Não há como negar o sentimento generalizado de paranóia e revolta em todos os setores da Universidade. As pessoas se entreolham pálidas, assustadas sem saber o que dizer, a quem dizer. E de supetão, sabemos que fulano foi embora, que ciclano saiu... Ontem mesmo na secretaria integrada tive que assistir a um funcionário se despedindo de outro, conformado das amarguras da vida, desejando felicidades e tudo mais. Mas e o sentimento de nó na garganta que esta presente em todos, de gerentes a auxiliares? Esse sentimento que fica lá, guardadinho, medroso de se mostrar. Existe alguém que consegue não se sentir mal?
Desfalcados, setores ficando vazios, trabalhos se acumulando entre os remanescentes. O grande problema nem está na demissão em si, mas no medo, de talvez ser o próximo. do medo de falar no assunto, na tentativa de deixar pra lá, pensando em perspectivas, em melhoras. Mas ainda assim fica o receio. O ambiente de trabalho torna-se pesado, cansativo, as pessoas reagem de formas estranhas, alguns choram, outros riem. mas o "tesão" de trabalhar num lugar assim vai indo embora, junto com qualquer força de vontade.
Faltou alguém aparecer e informar o que está acontecendo. Pessoas, ficam sabendo por não sei quem, que contou a não sei que outro, e assim sucessivamente com uma avalanche de informações cruzadas e meias-verdades. Não acham que os funcionários merecem uma satisfação? eles não merecem saber o que está acontecendo, serem tranquilizados, terem uma justificativa para a ausência de seus colegas? Os funcionários não se sentem pessoas, mas números de uma lista impressa, riscada á caneta vermelha , aleatoriamente.
A paranóia irá continuar, os receios, até que alguém tenha a mínima preocupação de se proclamar e explicar o que está acontecendo.
Desabafo necessário. Ou iria explodir.
___Foda-se.
Engoliu doses fartas e atirou-a contra o bote que lentamente dirigia-se para a imensidão. Limpou as botas, e tornou a ajeitar os "documentos" na calça jeans apertada.
Jeanice esperava-o no fusquinha prata, maquiando-se no espelho do veículo. Gostava de passar assim o tempo, quando nada tinha a fazer, o que era freqüente. Tinha os lábios tão pintados que podia chupar muitos caras e continuar com o batom intacto. A propósito, desenvolvera uma técnica pra isso. Não queria ver Olívio que, provavelmente, estava afundando numa merda de bote no meio daquele mar podre e fedendo a merda. Riu-se. Parecia na verdade, bastante adequado. Deixou escapar uma lágrima, e toda feliz, pô-se a limpá-la, restaurando a marca que deixara no meio do pó branco. Steven voltou mancando até o carro, o jeans manchado de vermelho bem próximo ao joelho, tivera sorte.
Entrou no carro, uma música alegre e antiquada tocava em uma rádio que desconhecia, aliás como tudo naquela região.
Ouvira falar nos nórdicos, e nas cerimônias de churrasquinho da morte, mas aquela palhaçada já era demais. Mas tudo bem, tudo bem. O pior ainda estava por vir.
Jeanice ajeitou o decote e passou pó entre os seios, disfarçando uma cicatriz clarinha em forma de meia lua, quase imperceptível (agora totalmente).
___Então... é isso. Arfou Steven.
___Isso o caralho. Dirige aí.
___Olha a boca.
___Boquinha de veludo.
___Vadia. Vagabunda.
___Vai me engolir querido. Até chegarmos lá.
Não sabia onde estava com a cabeça por prometer coisas a um moribundo fudido. Tá que a mão estava gelada, tá que ele sussurrava de uma forma que lhe doia o peito de lembrar mais... aquilo já era demais.
Rodou a chave e acelerou. Ela voou pra trás, chocando-se contra o banco, derramando todo o conteúdo fedorentamente doce de um vidrinho lilás.
___Filho da puta! Essa porra é muito cara!
___Cala a boca, a gente tem muito o que rodar ainda.
___Foda-se.
___É impossível sair alguma coisa dessa tua boca que não seja suja vadia?
___Impossível... Tudo que entra ou sai da minha boquinha é suja. Tudinho, até mesmo isso que tais pensando.
___Nem pensei nada.
___Nem adianta olhar os meus peitos, sou muito cara pra ti seu puto.
___Cala a boca...
___Vem calar!
Quando chegaram na cidadezinha, seguiram as placas até a igrejinha, desceram do fusca e caminharam pela ruazinha de pedras em direção a Santa. Alguns fiéis olharam-nos como que ofendidos pelo nascimento dos dois, e arrogantes, afastaram-se.
Deu o maço de dinheiro a Jeanice.
___Vai lá.
___Já disse que...
___Nem vem porra! Tu prometeu pr'aquele merda, agora te manda.
Ela olhou ao redor, e viu milhares de olhos fitando suas pernas e decote, com repugnância, o que a fez sorrir. Sabia que aquele olhar disfarçado de puritano só demonstrava ainda mais o desejo destes de comê-la o quanto antes. Naquele lugar, com certeza, teria clientes, mas tinha prometido isso e,agora (merda!), tinha que cumprir.
Colou o chiclé embaixo de um banco e foi até a água benta onde benzeu-se. Caminhou rebolando até o altar, e beijou de leve a cabeça da santa. Colocou a carta e o dinheiro sobre o altar, benzeu-se novamente e foi saindo. Na rua, uma multidão de curiosos já os esperava. Sairam cantando pneu, deixando um rastro laranja de barro seco na estradinha que se afunilava a medida que aproximava-se do horizonte. O padre, confuso, aproximou-se da imagem, e pegou o maço de notas de cem, e o envelope, destinado a santa. Levou-os até a sacristia, com um largo sorriso. Abriu com cuidado a carta, desdobrou o papel. Muitos aguardavam para desvendar aquele mistério todo. Após pigarrear, o pároco leu em voz alta, enquanto beatas e moradores em silêncio mortal, ouviam.
"Padre Walter. Por favor, compre um modelito decente pra essa mona, que esse véozinho tá um h-o-r-r-o-r!
Olívio"
- Mood:
crazy
