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July 6th, 2009

Coisas Brandas, coisas leves

  • Jul. 6th, 2009 at 6:07 PM
vierde
Não é de hoje que se tem crises de inspiração, e nem um pouco incomum entrar em desespero por uma ideia que se desintegra e explode-se em fagulhas invisíveis no friozinho da manhã. Quantas pessoas estariam insones numa mesma madrugada odiosa, olhando a tela branca de um editor de texto, de um browser, com vontade de socá-la bem no focinho insípidamente sorridente? Nesse percurso de vai e vem de ideias, os dedos se arrastam pelo teclado sem muita veemência e buscam socorro das sombras frias do cotidiano.

Atravessa então a calçada molhada, equilibrando-se no meio fio como o equilibrista na corda bamba. O vento soprando frio no rosto muito pálido de doente, o narigão-pimentão. Os barulhos dos carros parecem gargarejos. As pessoas parecem gorgolejar enquanto falam e tudo é leitoso e denso. Ele desequilibra-se na parte mais difícil, a grande poça de lama escura que  reflete sua própria expressão de cantarolante. Alguns minutos e mais equilibrismo e pára um pouco para respirar, garganta seca gelada de ar de tarde chuvosa. Inspira. O ônibus é cruel. Aproveita-se da distração para passar em alta velocidade próximo de mais do meio fio, fazendo um túneo de vácuo assustador, tirando um fino do ombro, fazendo o sujeito sobressaltar-se e fazer xingamentos profanos, xingar o papa, o bispo, a mãe do motorista (por último). Expira.

A noite, após um sono mais que justo e repentino, esfrega os olhos e, coçando-se em barulhinhos de pijama, liga a luz do banheiro que sabe que está com defeito, e  fica observando-a piscar como numa danceteria, laçando fluorescência pelas paredes e fosforescendo a pasta de dente de mentaplus com micropartículas, iluminando as escovas a voltar suas cabeças cheias de afetação para a direção contrária, iluminando de relance o garoto descabelado que andara tendo crises de ideias durante o dia.

Antes de todo o sono e drama, teria ido até o teatro, encontrando-o fechado,  um aviso gigante de que não trabalhavam nas segundas. Escolhera uma segunda. Trabalhavam nas terças, nas quartas, nas quintas, nas sextas. Há! Sábados!  Mas naquele dia fatídico e soturno, nada de ingressos de meia entrada para pessoas de compleição inteira. Era um fato. Havia um telefone para ligar para informações, e uma comitiva de orelhões que não funcionavam pelo seu caminho de volta ao trabalho. Ah, sim o trabalho. Acotovelamentos e atendimentos. Pessoas corteses, pessoas descorteses, pessoas odiosas e pessoas cômicas. Pessoas que se faziam de desentendidas, pessoas que se mostravam muito entendidas, e até queriam se fazer entender a força. Todas encotravam a mesma expressão, o mesmo tom de voz monocórdio com as mesmas palavras pronunciadas da mesma forma, fita de secretária eletrônica acionada por um botão invisível. Retirar? Devolver? Sim. Não? Boa noite. Bom dia!

A noite, após o episódio da lâmpada escarnificadora, acordou várias vezes. Deitado de barriga pra cima, o edredon a cobrir-lhe parcialmente, apesar do frio, a boca aberta compenetrada. Fitava o teto a procura de uma mancha em formato exótico, que lhe inspirasse a contos excêntricos de viagens mirabolantes a grande Àfrica Setentrional, talvez no lombo de elefantes selvagens e o ataque de indígenas antropófagos o levasse até a descoberta da estátua de uma divindade profana desconhecida, Mishtrars, a que não dorme.  Talvez encontrasse próximo a extremidade, um relevo em forma de duna, que inspirasse a um encontro na praia, uma crônica de dômingo com uma família farofeira e suas desventuras complexas ao enfiarem toda a tralha mais as crianças em um carro e partirem para uma praia do litoral de Florianópolis, e os problemas de um pneu furado e uma "boa alma" mal intensionada no meio da estrada que surge com um cutelo para ajudá-los. Mas o teto, azul e liso, sereno e dormente não mostrava-se convidativo nem inspirador. Não lhe deu leões, nem homens armados e nem mesmo contos de boteco. Insistiu em tentar dormir.

Acordou com o sol açoitando a cara, todo torto, dedos dormentes, marca de baba que escorrera-lhe do canto da boca, seco, que esfarelou-se assim que ele esfregou a face num suspiro de dorminhoco. Era cedo, e a posição estranha que dormira sobre o notebook, por não ser um ginasta especialista em alongamentos, custava-lhe nos momentos alguns "ais" sonoros.  Na tela, um título, que não lembrava de ter escrito, centralizado, todo em letra maiúsculas imponentes. Talvez não tão inovador, mas com algo de petulante, algo de novo-velho, até cotidiano. Uma mistura de muitas coisas, boas e ruins, um nó na garganta ao passo que era ilustrativo e até infantil, dependenddo. Um pontapé pra uma boa história, talvez mais de uma. Poderiam passar dias utilizando conceitos filosóficos para explicar aquele título que era mais profundo que a garganta do Zaratustra. A tecla do backspace agiu rápida. Fechou a tela. Dormiu despreocupado.

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