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Sem título

  • Oct. 1st, 2007 at 10:48 AM
yellow
Pegue uma dúzia de informações inúteis e coloque em uma cachola aleatória. Pronto. Agora ponha uma fita nova na máquina de escrever, dê alguns espaços para centralizar e escolha um título:

O morto

Meio mórbido. Rude Talvez. Eu diria desnecessariamente obscuro, a menos que se refira a uma partida de canastra. Tirando a folha. Amassando. Lixeira.

Vou tentar novamente. Algo mais voluptuoso talvez. Um pouco enigmático.

Ordinária.

Nossa. isso Foi muito Nelson Rodriguez. Talvez um pouco cru demais. Meio brusco. Um bom título até, o ponto dá um "quê" a mais, como uma freada brusca em qualquer idéia subseqüente. Em outras palavras, Lixo!

Nova folha. Espaçamento. Cara de quem não sabe o que fazer de desespero. Os dedos, todos esquerdos, até os da outra mão, catam milho sobre as teclas, decididos a sair um pouco do usual:

Valeska e o raio azul

Essas idéias de raios coloridos são toscas. Afinal, textos com raios azuis, vermelhos, verdes (Até o Julio Verne tem um!) é uma coisa tão batida! Porque raio? Será um raio lazer? Será um raio que risca o céu em um noite tempestuosa? Será um raio invisível? Não ele é azul. Algum raio ocular, como do Ciclope dos X-men. NÃO. Estressei-me. Nada de raio, e nada de cor.

O papel, arrogante, desta vez, insistiu em empelotar-se e travar completamente a maldita máquina escrevinhadora. Mais irritado que nunca, puxei violentamente o papel, que escorreu pelo carro e voou sobre a minha face talhando-me de leve a bochecha. Papel assassino! E meu dedinho latejando. E o cheiro de graxa, e a máquina a observar-me irritantemente indiferente.

Violento, domei-a. Papel no ponto, espacinhos barulhentos. Que título meu Deus? Se fosse um texto do word ele ia colocar o primeiro parágrafo como título do arquivo. Mas nem tem um primeiro parágrafo! Talvez ele criasse um "Untitled.doc". Não isso seria péssimo. O título tem que ter peso. Ele chama o leitor. Este sente-se atraído como por uma força magnética invisível, que lhe puxa as pálpebras, os globos oculares, as idéias dispersas para aquele ponto nu do papel, aquela zona mágica que, como os cheirinhos de comida dos desenhos animados que atraem o personagem incauto a deslizar mais leve que o ar através das telas coloridas da TV até o delicioso prato cobiçado. O título é tudo. Mas não há idéia nenhuma. Não há nada. Apenas terror de não criar título. De deixar um espaço em branco, morto, cadavérico. Arranco a folha em branco, maldita e arremesso longe, numa panela lá na cozinha.

Mas e se...
Minha mente dá voltas repentinas e freia na frente de um bar.
"Maracujá Joinville, por favor."
Voltando das necessidades mundanas, minha mente sussurrou baixinho pra alguma entidade burocrática que repassa essas informações pro meu eu concientemente desconciente.
"Comece pelo fim".
"Comece pelo fim?"
"Não discuta, só repasse"
"Assine essas 5 vias, protocole e traga com esses documentos".

Alguns minutos de pérfida e dolorosa auto-flagelação não criativa depois, veio-me a idéia, violenta, de supetão. Quase caí da Cadeira.
"Comece pelo fim? Claro!"

Esse seria um daquele malditos textos de trás pra frente, quase como uma versão renovada de "Amnésia". Mas com mais sexo, e mais violência. E mais tatuagens. Ou não.
Decidido, meus dedos apertaram fortemente as teclas, já adormecidas. Foi rápido e prático como um miojo de novela. Acabo uma coisa começando outra. Isso ai!
Espacinhos, espacinhos. Olhar nervoso. Medo. Unhas roídas. Aí vem!


FIM

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Comments

( 1 comment — Leave a comment )
[info]ruko_coca_cola wrote:
Oct. 1st, 2007 08:34 pm (UTC)
muito bom, amado! *-*
e não esquece : a última coisa que se faz é nomear a história! ;D
HUAHAUHAUAUH
( 1 comment — Leave a comment )

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