Berenice nunca foi dessas dadas as coisas mundanas da vida. Sempre foi corretíssima. Perdia-se em cálculos mentais mirabolantes e instantâneos, era um gênio das finanças domésticas. Organização impecável, roupa bem passada, cabelo sempre bem preso num rabo de cavalo no alto da cabeça. Era magra ao extremo, pois era rígida com a alimentação, e fazia sempre a mesma quantidade de exercícios todos os dias, nos mesmos horários. Não havia nada que pudesse deixar Berenice mais irritada, do que ter um contratempo que desarrumasse seu horário de alguma forma. Inventava formas para driblá-los e pôr tudo nos eixos.
Pois bem, esse era mais um desses dias divertidos e zelosos na vida de Berenice. Foi quando encontrou Eduardo.
Eduardo não era bem um "homem". Era, talvez na personalidade, era no comportamento. Nascido Maria Eduarda da Silveira, Eduardo tinha dois metros e 10 centímetros, uma barriguinha de cerveja, olhos vidrados e um cabelo liso ensebado. Tinha uma expressão desconfiada no olhar masculinizado. Havia um quê indisfarçavelmente feminino em seu rosto fino. Se fosse um homem, seria um homem "bonito como uma mulher". Duplos sentidos à parte, viu Berenice passar e abordou-a:
___Gostosa!
Eduardo viu-se assustado com o próprio cinismo. Meio que desesperado, não catava uma mulher a semanas, e estava na seca. Ah. A maldita seca.
Berenice, obviamente, olhou-o com desdém. Torceu o nariz grosseiramente, e virou a cabeça com orgulho, continuando a andar, o mais ereta possível, em frente. Mas seria impressão, ou o coração de Berenice, batia de forma estranha?
Adaptada a vida masculina, Eduardo tinha um estranho sexto sentido que lhe chamava atenção a pequenas minúcias comportamentais femininas, que revelavam-lhe comportamentos específicos. Em suma, um sexto sentido pra mulheres que se atraiam por ele. E havia algo na moça que passou. Insistiria? Claro. A seca!
___Ei princesa. Quer compania p'rum passeio?
Estranhas essas garotas masculinizadas. Insistiam em cantadas tão ruins quanto as masculinas, se não as vezes, piores. Mas Eduardo tinha uma grande vantagem competitiva: Era um garoto bonito. E como dizia a Rachel de Queiroz, "Deus traz os bonitos, debaixo de sua mão". Aliás, a Rachel era um ponto em comum em ambas. Eduardo, entrara em contato com a escritora durante a adolescência, ao encarar um maldito trabalho de literatura. Adorou-a. Amou-a. Queria tê-la na cama e ouvir seus risinhos baixinhos a sussurrar indecências em seus ouvidos. Foi uma fase estranha. Quanto a Berenice, leu algo dela numa reunião literária de quinta, que obrigava-se a comparecer. Odiou-a do começo ao fim, fazendo longas explanações acerca de sua literatura xula e controversa. Vida estranha.
Pois Bem. Estava ela lá, andando ereta, sem olhar pra trás, o rosto comprimido, o pensamento tentando se concentrar nos eventos que deveria participar, nas compras, na organização da biblioteca, nas ordens da empregada... Suava frio. Apressou o passo.
Eduardo sabia que a luta estava ganha. Já vira esse tipo de nervosismo antes. Gente tímida. Ah, as timidas. Furacões na cama.
Puxou-a pelo braço violentamente. Eduardo não era de nove-toques. Era direto ao ponto, achava que as pessoas deviam viver peladas, pra facilitar o processo. Os cabelos cairam-lhe sobre os olhos, apertou o corpo de Berenice contra o seu. Esta retesou-se. Preparou-se para gritar. Então recebeu o beijo. Não romântico, nem um pouco. Violento, de arrancar pedaço. um beijo de língua, frenético. Durou poucos segundos. Separaram-se. Ela empurrou Eduardo pra longe, esbofeteando-o.
___Maluco pervertido! Miserável. Vá beijar a cachorra da sua mãe!
___Não esquece de mim tá!
Eduardo manda um beijinho de leve para Berenice, e virando-se, sai a caminhar pela praça. Ele sente-se de repente uma menina assustada a roubar o seu primeiro beijo da filha do dono do acampamento. Ah, infância. Saiu assoviando. Sentia-se satisfeito, e não sabia explicar porquê.
Berenice ajeitou a roupa, pegou um espelhinho e arrumou o batom. Saiu a caminhar irritada pra casa, onde ocupou-se com suas atividades. Haviam um grande jantar naquela noite, e havia todas as outras coisas. Irritada permaneceu durante todo o dia, descontando todo seu ódio nas empregadas, parentes e amigos. A noite, na cama, refúgio da fêmea disciplinada, com o rosto coberto pelo travesseiro, sorriu, presenteando-se com alguns minutinhos de felicidade. Minutos efêmeros. Dormiu.
Pois bem, esse era mais um desses dias divertidos e zelosos na vida de Berenice. Foi quando encontrou Eduardo.
Eduardo não era bem um "homem". Era, talvez na personalidade, era no comportamento. Nascido Maria Eduarda da Silveira, Eduardo tinha dois metros e 10 centímetros, uma barriguinha de cerveja, olhos vidrados e um cabelo liso ensebado. Tinha uma expressão desconfiada no olhar masculinizado. Havia um quê indisfarçavelmente feminino em seu rosto fino. Se fosse um homem, seria um homem "bonito como uma mulher". Duplos sentidos à parte, viu Berenice passar e abordou-a:
___Gostosa!
Eduardo viu-se assustado com o próprio cinismo. Meio que desesperado, não catava uma mulher a semanas, e estava na seca. Ah. A maldita seca.
Berenice, obviamente, olhou-o com desdém. Torceu o nariz grosseiramente, e virou a cabeça com orgulho, continuando a andar, o mais ereta possível, em frente. Mas seria impressão, ou o coração de Berenice, batia de forma estranha?
Adaptada a vida masculina, Eduardo tinha um estranho sexto sentido que lhe chamava atenção a pequenas minúcias comportamentais femininas, que revelavam-lhe comportamentos específicos. Em suma, um sexto sentido pra mulheres que se atraiam por ele. E havia algo na moça que passou. Insistiria? Claro. A seca!
___Ei princesa. Quer compania p'rum passeio?
Estranhas essas garotas masculinizadas. Insistiam em cantadas tão ruins quanto as masculinas, se não as vezes, piores. Mas Eduardo tinha uma grande vantagem competitiva: Era um garoto bonito. E como dizia a Rachel de Queiroz, "Deus traz os bonitos, debaixo de sua mão". Aliás, a Rachel era um ponto em comum em ambas. Eduardo, entrara em contato com a escritora durante a adolescência, ao encarar um maldito trabalho de literatura. Adorou-a. Amou-a. Queria tê-la na cama e ouvir seus risinhos baixinhos a sussurrar indecências em seus ouvidos. Foi uma fase estranha. Quanto a Berenice, leu algo dela numa reunião literária de quinta, que obrigava-se a comparecer. Odiou-a do começo ao fim, fazendo longas explanações acerca de sua literatura xula e controversa. Vida estranha.
Pois Bem. Estava ela lá, andando ereta, sem olhar pra trás, o rosto comprimido, o pensamento tentando se concentrar nos eventos que deveria participar, nas compras, na organização da biblioteca, nas ordens da empregada... Suava frio. Apressou o passo.
Eduardo sabia que a luta estava ganha. Já vira esse tipo de nervosismo antes. Gente tímida. Ah, as timidas. Furacões na cama.
Puxou-a pelo braço violentamente. Eduardo não era de nove-toques. Era direto ao ponto, achava que as pessoas deviam viver peladas, pra facilitar o processo. Os cabelos cairam-lhe sobre os olhos, apertou o corpo de Berenice contra o seu. Esta retesou-se. Preparou-se para gritar. Então recebeu o beijo. Não romântico, nem um pouco. Violento, de arrancar pedaço. um beijo de língua, frenético. Durou poucos segundos. Separaram-se. Ela empurrou Eduardo pra longe, esbofeteando-o.
___Maluco pervertido! Miserável. Vá beijar a cachorra da sua mãe!
___Não esquece de mim tá!
Eduardo manda um beijinho de leve para Berenice, e virando-se, sai a caminhar pela praça. Ele sente-se de repente uma menina assustada a roubar o seu primeiro beijo da filha do dono do acampamento. Ah, infância. Saiu assoviando. Sentia-se satisfeito, e não sabia explicar porquê.
Berenice ajeitou a roupa, pegou um espelhinho e arrumou o batom. Saiu a caminhar irritada pra casa, onde ocupou-se com suas atividades. Haviam um grande jantar naquela noite, e havia todas as outras coisas. Irritada permaneceu durante todo o dia, descontando todo seu ódio nas empregadas, parentes e amigos. A noite, na cama, refúgio da fêmea disciplinada, com o rosto coberto pelo travesseiro, sorriu, presenteando-se com alguns minutinhos de felicidade. Minutos efêmeros. Dormiu.

