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Póstumo

  • Feb. 6th, 2008 at 2:49 AM
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As estrelas. O céu brilhante me convida a observação. É comum se sentir insignificante ao olhar pra elas. Pequeno. Humilde.
Eu me sinto triste. Triste de uma forma nostálgica, saudosista. Como se num passado remoto, pudessem meus dedos alongarem-se em tamanhos infinitos a ponto de tocálas, permitindo que estas escoassem por entre eles, cascateando brilhantes até atingirem-me os braços nus, e lamberem meus olhos escuros com suas línguas de fogo.
Agora entretanto, poderia eu apenas olha-las de longe, enquanto ouço uma melodia, tocada insistentemente em um winamp longínquo de alguma tela acesa. A canção convida-me a cruzar estas estrelas, a viajar pelo infinito, bastando saltar daqui de cima. Claro que os mosquitos cruéis e zombadores, picariam-me com violência, como que envenenando-me a conciência para que esta não mais se perca entre os luzeiros distantes.
Não há diamantes lá em cima, zuniam eles. Nem mesmo a Lucy. Só estrelas.
Numa noite de verão fresca, com uma leve brisa a atravessar teimosos meus cabelos embaraçados, numa sacada qualquer de uma casa igualmente qualquer, que você provavelmente não vai conhecer, ou reconhecer.
A meia luz, forte o suficiente para distinguir traços negros no papel cheio de linhas finas, mas fraco o suficiente pra permitir que os pontinhos luminosos se destaquem imóveis no negro firmamento, permite-me vislumbrar naquele céu algo de sonho, algo de meu.
Posso ouvir baixinho sons distantes de motores, de pessoas conversando alegremente, de reclamações, de rádios, de televisões, como um chiado impaciente de um mundo fora de estação.
Entretanto estou só, sendo observado pelas estrelas caladas, que não riem nem xingam, nem discutem sobre política ou arte. Neutras. Imutáveis. imortais.
Essa imortalidade que procuram os homens desesperadamente, em suas orações, em seus teoremas, em seus projetos. Essa busca incessante pelo imutabilidade, pela eternidade, pelo prolongamento de suas vidas, seus sentimentos, suas carreiras, seus bens, seus amigos, suas histórias. E cá estou eu, diante do imortal, pensando na finalidade. No ponto final. Na vida, os fins são quase sempre insatisfatórios. Bruscos, imaturos, violentos, extremos, tristes, sem volta. Nos contos, procuramos os fechamentos perfeitos, os nós atados, o clímax no momento certo. Queria poder fazer uma história que não tivesse um fim com pessoas felizes para sempre, ou um daqueles que deixam o gosto amargo da insatisfação na boca, ou mesmo daqueles que te fazem ansiar por mais. O outro escritor não pode querer uma crônica límpida como um sorriso? Pois quero eu, um conto como uma estrela. Imóvel, brilhando em cantinhos obscuros de muitas mentes, despontando-se no céu desses pensamentos em algum momento aleatório, trazendo-lhe lágrimas, ou risos, ou pesar. E estes passasses longos momentos a admirá-lo, recitando-lhe pedacinhos e recordando com outros. Por isso escolho esta estrela que desceu na ponta da minha caneta pra que seja minha história, que depois de brilhar em céus desconhecidos por um longo tempo, possa então, cadente, declinar lenta e silenciosa na última lembrança que iluminou.

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