As luzes da cidade explodem em dezenas de estrelas de muitas pontas, cegantes. Passou a chuva a pouco, e o asfalto quente evapora rapidamente os resíduos de água. As sobreviventes das poças, isoladas, espalham gotículas pelos meus pneus que urram pelo asfalto quebradiço. Não saberia dizer exatamente se chorava ou sorria, mas naquele momento, minha mente mostrava uma limpidez inexistente, uma brancura tal, desinteressada em qualquer pensamento trivial, concentrada, mecânica. Vi outras luzes fortes, vermelhas, laranjas, estrelas cadentes castigando meus olhos semicerrados sob o capacete embaçado pela minha respiração. O retrovisor me mostra um mundo negro lá atrás, que não deseja ser esquecido, refletido num espelho coberto de gotinhas brilhantes. Havia cerrado os punhos a pouco, e socado a cara de alguém que não conheço. Não saberia dizer exatamente o porquê, mas seja qual for o motivo, não era o bastante. Cansado da estrada, cansei da mentira. Cobri-me de estrelas numa noite qualquer, e agora elas me picavam os olhos, como que pra me alertar que a realidade dói. Há algo tocando por perto, o som vem jorrando vento a frente, dísfono e desconexo. Ignoro luzes e curvas, e coisas que chocam-se contra as rodas. Atravesso com minha moto, a lâmina de minha própria fúria cortando o vento como queria ter cortado outra carne, que não importava, que não se importava, que não era importante. A cabeça confusa não avalia situações, a cabeça cansada não retoma a situação, e a situação em si não devolve a minha vida, aquela que eu não tenho, mas me enganei por tanto tempo que teria. Ou tinha. Ou tenho.
Com o estrondo sinto o pneu, vítima de alguma armadilha infantil esvair-se em ar, sangrando e lamentando enquanto murcha indignado, e minha alma parece que se esvaziou com ele. Sinto-me indiferente ao tranco que a moto dá, e arrasto-lhe na direção contrária, frio, visando o meio fio. mas claro que há algo entre nós.Nós?
Quando ouço os últimos acordes de Imagine ecoando em meus ouvidos, agora concentrados no exterior, ouço o Lenon me sussurrar baixinho no ouvido que pode não existir um paraíso. Torço por isso. Antes de perder os sentidos, não vejo porra nenhuma de vida passando aos meus olhos, nem merda nenhuma de luz branca ou mantra ecoando cabeça abaixo. Mas juro que ouvi uma risadinha. Acho que era a minha.
Com o estrondo sinto o pneu, vítima de alguma armadilha infantil esvair-se em ar, sangrando e lamentando enquanto murcha indignado, e minha alma parece que se esvaziou com ele. Sinto-me indiferente ao tranco que a moto dá, e arrasto-lhe na direção contrária, frio, visando o meio fio. mas claro que há algo entre nós.Nós?
Quando ouço os últimos acordes de Imagine ecoando em meus ouvidos, agora concentrados no exterior, ouço o Lenon me sussurrar baixinho no ouvido que pode não existir um paraíso. Torço por isso. Antes de perder os sentidos, não vejo porra nenhuma de vida passando aos meus olhos, nem merda nenhuma de luz branca ou mantra ecoando cabeça abaixo. Mas juro que ouvi uma risadinha. Acho que era a minha.

