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Across the universe

  • Feb. 12th, 2008 at 1:37 AM
yellow
Me assustei com o sininho que o garoto de manto laranja tocou pertinho da gente. Esperava que ela risse, mas não aconteceu. Ele se aproximou com folhetos e filosofia Krishna, simpático e sorridente. Todos são sempre simpáticos e sorridentes. Todos.
Rita olhou-me com cara enigmática. Cara enigmática aqui lê-se "expressão neutra que pode tornar-se ofensiva ou depressiva, dependendo de um contexto desconhecido de alguma galaxia distante que até mesmo ela desconhece e tem alguma relação com a TPM".
___Jai Guru Deva! - Eu disse.
Rita suspirou impaciente. Eu sempre quis saber o que aquele raio significava. Ora que mandaram essa porra pro espaço eu poderia ao menos saber o que significa não? O Garoto sorriu um sorriso aberto, e passou a mão em minha cabeça.
___Repita isso todo dia. Vai ser bom.
E se foi.
Rita tinha uma expressão irônica no rosto, o que significava o meu calvário, para deleite dela.
___Vai virar Krishna?
___É uma música dos...
___Eu sei. Tu esqueceste o ohmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm!
Ela faz uma falsa pose de meditação transcedental enquanto mostra a longa língua rosada pra mim.
___Vamo comer ali?
___Pode ser. Tem bancos e Sprite.
Rita ajeita-se, mexe nos cabelos negros colocando-os para trás dos ombros. Senta-se e retira a carteira vermelha da bolsa de bolinhas. Ela não mais sorri.
___Qual é o problema?
Existem pássaros nas árvores próximas do barzinho e uma sensação estranha no ar, que começa com o fato de ela, Rita, ter aceitado comer num lugarchulé que ela nunca viu na vida. Meus temores estavam corretíssimos. Não planejava comer, a safada.
___E?
Ela mordeu o lábio, que tremia lentamente. Isso estava começando a me deixar preocupado. Tentei não demonstrar o desespero e enfiei novamente a unha na palma da mão para me controlar.
___Notou como a gente anda estranho?
O sol iluminou a garrafa verde que foi colocada displicentemente a frente dela. Acho que os olhos dela eram mais verdes.
Parei por um momento. Se os olhos dela estavam tão verdes, já sabia o que significava...
___Cara, tu andou cho...
___Acho que te perdi né?
Minha cara foi um misto de surpresa, alívio e vontade de comer batatinhas. Ah, que bobagem! Obviamente eu ri.
___Do que tais falando criatura?
___Da tua indiferença, da tua falta de carinho, frieza, quer que eu enumere mais coisas?
___Mas como assim?
___Já notou como andas longe de mim? Nem te aproximaste o fim de semana inteiro!
Não sabia se ria ou me preocupava.
___Deus, mulher! Tu tá na TPM! Se eu me aproximo, tu me xinga até a morte!
___É eu sei!
___Então não é melhor eu ficar longe?
___Não!
___Viu! e.. Ahn? Não?
___Claro que não! Eu tô carente!
___Mas dai tu me assassina! E me bate! E...
___É eu sei...
___E quer que eu insista mesmo assim?
___Claro!
Minha cabeça deu voltas. Depois reclamam da falta de mulheres filósofas. Hmpf.
___Promete não me bater ou outra crueldade?
___Claro que não.
___Ótimo.
___Que não prometo.
Eu já tinha recuperado o bom humor. Mordi-lhe o ombro e o tapa assassino escapou de acertar-me o nariz, mas não escapou-me o pescoço.
___Ouch!
___Idiota.
___Bem que podia começar a tocar qualquer coisa dos Beatles agora né.
___Vou pra casa.
___Mas...
Ela me deu um beijo rápido e ajeitou-se.
___Tchau.
E sorriu. Entrou no carro e acenou. Fiquei ali com cara de bobo, com a garrafa de Sprite a queimar-me os olhos no sol de finzinho de tarde.

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