Quando a porta do carro foi fechada, ele e ela ocuparam os bancos da frente. Sentei-me indiferente entre tralhas e garrafas cativos no banco traseiro. Alheio a trivialidade das conversas que se estenderam em assuntos variados peguei o celular no bolso lateral da calça, desenrolei cuidadoso o fone já velho e ajeitei-o, segurando-o num ângulo estranho para que não teimasse como sempre em falhar o fone esquerdo. Acendi o visor com um toque no botão redondo. Play.
Meu mundo transformou-se aos poucos, isolando os chiados exteriores com os primeiros acordes de “Dear Prudence”. Abri a janela. O carro rodava no asfalto à uma velocidade razoável, o que permitia que o vento sacana entrasse carro adentro e açoitasse meus cabelos compridos. Pus a palma pra fora, pra sentir a chuva fininha e pontiaguda dar-me leves agulhadas. Sorri.
Havia algo de assustador em ouvir Beatles, na forma como o mundo aos poucos se esmaecia e me tirava de sintonia pra um lugar isolado, onde uma Prudence teimosa resolvia frear a moto na rodovia logo a nossa frente, e sair correndo com os cabelos claros flutuando brilhantes no negrume. E lá se vai ela. Ouve-se o silêncio característico de troca de uma música para outra, tempo suficiente para que chegassem a mim algumas conversas entrecortadas que fora de contexto só me deixaram confuso.
"Don't let me down!" Disse-me o aparelho de mp3, trazendo-me de volta da realidade. Interessante o mundo assim. É como se eu estivesse num filme, em uma daquelas cenas em que o diálogo não é importante, apenas as ações dos atores, e a música sobe, tomando conta de tudo, do enredo, do mundo. Cantei em silêncio enquanto balançava de leve a cabeça sem ser notado. "one moooore time!!!"
A escuridão chamou-me a atenção, no ponto em que a bela Prudence atravessava a pista em direção ao nosso carro que parou em um sinal. Debruçou-se sobre a minha janela, pedindo tímida que não a esquecesse, que a colocasse em meu próximo conto. Seus olhos estavam marejados, mas não me convenci.
"A seu tempo". Falei sozinho.
"She's not a girl... who misses much…"
Saberia me dizer quantos alter-egos teriam corrido pelados por esse matagal escuro? Quantos reinos de copas, quantos assassinatos sórdidos? Quantos estupros, quantos piqueniques frustrados? Minha mente funciona a mil, talvez excitada pela velocidade do asfalto que se vai, ou pela música que começava. Teri somente eu, visto Prudence naquele meio-fio?
Sabe, "Happiness is a warm gun" era assim, lentinha a princípio... sedutora, “tchurururururu”. Até que a madre superiora resolve aparecer ao som de uma guitarra rangendo, arma em punho e tudo vira uma baladinha totalmente diferente da do início. E você sente que está sendo lentamente guiado para outro caminho, como se o veludo se tornasse aço gelado, enquanto a moça Prudence, mostrando o rosto sob o hábito, retira delicadamente o cabo de madrepérola do decote e se oferecesse para estourar meus miolos. Eu sorrio. Moça insistente essa.
"Já disse." - Persisto.
Meus olhos passam rapidamente por uma construção de cimento mal pintada, luzes incandescentes amareladas, fuscas e fiats por todos os lados, e muitas pessoas velhos com suas botinas compridas e cinto de fivelão, moças mais velhas com vestidos de chita curtinhos, rapazotes de cabelo lambido e camisa social por dentro da calça, e mocinhas com vestidos rodados e euforia nos trejeitos. Há um homem grisalho lá, que encontra os olhos com os meus por alguns segundos. Estaria ele procurando Prudence?
Estariam eles mais tarde dançando naquele salão colorido, agarrados ouvindo Beatles? Se bem que aquele lugar tinha cara de estar tocando um sertanejo, ou um vanerão. Mas minha imaginação conflitante insistia em inserir Beatles naquele ambiente.
"Hold me tight!"
Algum tempo depois, lá estão eles, dançando uma baladinha. Ela sussurra algo ao seu ouvido.
"Oh Darling... Please Belive-me..."
Ele sorri. Aproxima mais o corpo contra o dela. Seus olhos castanhos fitam o negro profundo dos dela. Um mar negro, um céu noturno. Indefinível.
"I never let you down..."
Ela diz-lhe algo mais ao ouvido. Ele concorda. Aqueles olhos negros fitam-me por sobre os ombros dele, felinos, como que a confidenciar-me que já tinha escolhido personalidade e enredo pra si própria. Petulante...
Ela leva-o até o banheiro. Empurra-o contra a porta. Tranca. Beija-o com força, sobe-lhe as mãos pelas coxas. Ele embala-se no êxtase, se deixa levar pela provocação descendo-lhe o decote com os lábios a roçar o tecido fino. Ela sorri. Com duas estocadas certeiras corta-lhe uma veia do pescoço, afasta-o e apunhala-o no peito com precisão. Outras estocadas, garantem um serviço bem feito.
"When I get to the bottom I go back to the top of the slide
Where I stop and I turn and I go for a ride
Till I get to the bottom and I see you again."
Lá se vai ela pela janela do banheiro. Próximo ao matagal há um saco plástico, escondido com antecedência. Uma camisa e uma calça Jeans. Limpa o sangue com uma toalha, retoca a maquiagem. Troca-se sob a luz tênue que vem da lua. Tira a peruca loura com cuidado e liberta os cabelos negros compridos, da sufocante prisão. Ora, quem, é você pequena Prudence?
Ela não me responde, pois acredita não precisar mais de mim. Mais um maldito personagem, se apodera de uma história que podia ser boa. Vejo-a me olhar irônica, quando o carro passa a toda velocidade por ela, que pede carona mais a frente.
Ela fala algo, que ninguém ouve. Mas eu já sei o que é. O Próximo carro vai parar com certeza. E a bateria do meu celular acaba.
Frente à tela pálida do computador, escrevo as considerações finais do texto. Ela fita-me divertida, pernas dobradas sobre a mesinha, mordendo os lábio de leve, crente de ter conquistado o direito a uma nova história.
"Why Don't We Do It In The Road?"
Meu mundo transformou-se aos poucos, isolando os chiados exteriores com os primeiros acordes de “Dear Prudence”. Abri a janela. O carro rodava no asfalto à uma velocidade razoável, o que permitia que o vento sacana entrasse carro adentro e açoitasse meus cabelos compridos. Pus a palma pra fora, pra sentir a chuva fininha e pontiaguda dar-me leves agulhadas. Sorri.
Havia algo de assustador em ouvir Beatles, na forma como o mundo aos poucos se esmaecia e me tirava de sintonia pra um lugar isolado, onde uma Prudence teimosa resolvia frear a moto na rodovia logo a nossa frente, e sair correndo com os cabelos claros flutuando brilhantes no negrume. E lá se vai ela. Ouve-se o silêncio característico de troca de uma música para outra, tempo suficiente para que chegassem a mim algumas conversas entrecortadas que fora de contexto só me deixaram confuso.
"Don't let me down!" Disse-me o aparelho de mp3, trazendo-me de volta da realidade. Interessante o mundo assim. É como se eu estivesse num filme, em uma daquelas cenas em que o diálogo não é importante, apenas as ações dos atores, e a música sobe, tomando conta de tudo, do enredo, do mundo. Cantei em silêncio enquanto balançava de leve a cabeça sem ser notado. "one moooore time!!!"
A escuridão chamou-me a atenção, no ponto em que a bela Prudence atravessava a pista em direção ao nosso carro que parou em um sinal. Debruçou-se sobre a minha janela, pedindo tímida que não a esquecesse, que a colocasse em meu próximo conto. Seus olhos estavam marejados, mas não me convenci.
"A seu tempo". Falei sozinho.
"She's not a girl... who misses much…"
Saberia me dizer quantos alter-egos teriam corrido pelados por esse matagal escuro? Quantos reinos de copas, quantos assassinatos sórdidos? Quantos estupros, quantos piqueniques frustrados? Minha mente funciona a mil, talvez excitada pela velocidade do asfalto que se vai, ou pela música que começava. Teri somente eu, visto Prudence naquele meio-fio?
Sabe, "Happiness is a warm gun" era assim, lentinha a princípio... sedutora, “tchurururururu”. Até que a madre superiora resolve aparecer ao som de uma guitarra rangendo, arma em punho e tudo vira uma baladinha totalmente diferente da do início. E você sente que está sendo lentamente guiado para outro caminho, como se o veludo se tornasse aço gelado, enquanto a moça Prudence, mostrando o rosto sob o hábito, retira delicadamente o cabo de madrepérola do decote e se oferecesse para estourar meus miolos. Eu sorrio. Moça insistente essa.
"Já disse." - Persisto.
Meus olhos passam rapidamente por uma construção de cimento mal pintada, luzes incandescentes amareladas, fuscas e fiats por todos os lados, e muitas pessoas velhos com suas botinas compridas e cinto de fivelão, moças mais velhas com vestidos de chita curtinhos, rapazotes de cabelo lambido e camisa social por dentro da calça, e mocinhas com vestidos rodados e euforia nos trejeitos. Há um homem grisalho lá, que encontra os olhos com os meus por alguns segundos. Estaria ele procurando Prudence?
Estariam eles mais tarde dançando naquele salão colorido, agarrados ouvindo Beatles? Se bem que aquele lugar tinha cara de estar tocando um sertanejo, ou um vanerão. Mas minha imaginação conflitante insistia em inserir Beatles naquele ambiente.
"Hold me tight!"
Algum tempo depois, lá estão eles, dançando uma baladinha. Ela sussurra algo ao seu ouvido.
"Oh Darling... Please Belive-me..."
Ele sorri. Aproxima mais o corpo contra o dela. Seus olhos castanhos fitam o negro profundo dos dela. Um mar negro, um céu noturno. Indefinível.
"I never let you down..."
Ela diz-lhe algo mais ao ouvido. Ele concorda. Aqueles olhos negros fitam-me por sobre os ombros dele, felinos, como que a confidenciar-me que já tinha escolhido personalidade e enredo pra si própria. Petulante...
Ela leva-o até o banheiro. Empurra-o contra a porta. Tranca. Beija-o com força, sobe-lhe as mãos pelas coxas. Ele embala-se no êxtase, se deixa levar pela provocação descendo-lhe o decote com os lábios a roçar o tecido fino. Ela sorri. Com duas estocadas certeiras corta-lhe uma veia do pescoço, afasta-o e apunhala-o no peito com precisão. Outras estocadas, garantem um serviço bem feito.
"When I get to the bottom I go back to the top of the slide
Where I stop and I turn and I go for a ride
Till I get to the bottom and I see you again."
Lá se vai ela pela janela do banheiro. Próximo ao matagal há um saco plástico, escondido com antecedência. Uma camisa e uma calça Jeans. Limpa o sangue com uma toalha, retoca a maquiagem. Troca-se sob a luz tênue que vem da lua. Tira a peruca loura com cuidado e liberta os cabelos negros compridos, da sufocante prisão. Ora, quem, é você pequena Prudence?
Ela não me responde, pois acredita não precisar mais de mim. Mais um maldito personagem, se apodera de uma história que podia ser boa. Vejo-a me olhar irônica, quando o carro passa a toda velocidade por ela, que pede carona mais a frente.
Ela fala algo, que ninguém ouve. Mas eu já sei o que é. O Próximo carro vai parar com certeza. E a bateria do meu celular acaba.
Frente à tela pálida do computador, escrevo as considerações finais do texto. Ela fita-me divertida, pernas dobradas sobre a mesinha, mordendo os lábio de leve, crente de ter conquistado o direito a uma nova história.
"Why Don't We Do It In The Road?"

