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Insônia

  • Mar. 5th, 2008 at 8:21 PM
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Correu atrás da viatura. Deveria ser o contrário. Ele sabia. Mas acabara de desistir de esperar por uma reforma miraculosa da merda do sistema. Pulou a mureta de uma casa e com três saltos alcançou um muro mais alto, de onde pode mergulhar sobre a frente do carro blindado. Agarrou com força o radar branco-pálido do mesmo, enquanto as bochechas eram espremidas contra o vidro. Ele sabia que não havia ninguém lá dentro, mas ainda assim valia o esforço. Tirou com dificuldade o objeto de plástico verde do bolso da jaqueta imunda de nylon. Ao colocá-lo sobre o vidro, este grudou-se com um sistema de ventanas. Uma sirene começou a soar alto e o beco escuro tornou-se um pandemônio em segundos. Com a freiada brusca do carro, seu corpo foi arremessado a metros de distância, tivera muita sorte de o sistema elétrico não ter sido acionado. Uma fratura exposta e alguns gritos depois, ele arrastou-se pela escadaria baixa de uma outra casa, um braço fraturado, e uma perna com um belo pedaço reluzente calcificado, observando o mundo externo pela maldita primeira vez. Urrou. Logo que o artefato explodiu, o carro capotou diversas vezes, deixando um rastro fumegante pela estrada negra. Esta continuava deserta, como se fizesse parte de uma cidade fantasma. Com um estalo e uma sirene, o mundo tornou-se ainda mais doloroso e âmbar. Essa ia ser a pior parte, e ele sabia disso.

___Bom dia querido.
Acordou em sua cama fofa, e sabia que não estava lá. Fazia parte do programa de defesa avançado, ganhar-lhe a confiança para conseguir informações. Depois fritariam seu cérebro.
___Bom dia Carmen.
Beijou-lhe com naturalidade.
___Tive um pesadelo horrível. Mas muito confuso.
___Carlos ligou ontem a noite, enquanto você dormia. Há uma reunião hoje antes do almoço. parece urgente.
Ela beijou-o. Exatamente como a mulher fazia. Chegou a se questionar por alguns segundos se não teria dormido numa dessas ilusões pré-programadas, a vida toda.
Pegou a pasta. Saiu para o trabalho. Provavelmente os desgraçados o manteriam vivo, tempo o suficiente para arrancarem-lhe alguma informação. Mas ele sabia que não podiam gravar nenhuma informação via impulso neural, precisavam de algo mais concreto, oral. A essa hora, estaria em alguma cama imunda tagarelando como um doido cada vez que "falava" em voz alta. Sabia de todos os procedimentos. Havia inventado a máquina. Tropeçou em alguns popups via retina, e odiou a imagem dupla que deixava nos olhos. Odiava muito tudo isso.
Iria até o trabalho normalmente, quem sabe refazer exatamente os mesmos passos que deu antes da noite de ontem. Espreguiçou-se e seguiu até o escritório. No caminho, viu um grupo de militares se aproximarem. Aí vinha merda.
Eles não perguntaram. Sacaram suas armas e descarregaram-na sobre a nuca desprotegida, e ele pode sentir cada bala atravessando-lhe o crânio, deixando sobre o chão uma papa avermelhada.


Quando acordou na casa velha da tia Rose, continuava gripado. Tinha tido uns sonhos confusos, durante o resfriado. Lera uma revista de ficção no dia anterior para passar o tempo, e agora seu cérebro parecia trabalhar a mil, como que despertado por revelações misteriosas. Questiono-se, elaborou teoremas conspiratórios, tudo fazia mais sentido agora. Mas a pneumonia fizera-o ter algumas alucinações estranhas, acordando do nada em lugares da casa pra onde não lembrava de ter ido, ou vendo coisas estranhas, ouvindo músicas que nunca ouviu antes. Queria dormir, um sono longo sem interrupções. Mas estava difícil.

Carmen tinha a péssima mania de roer unhas, o que não tolerava nela. Pedira que organizasse as coisas, e não fizera. Nada daria certo se ela continuasse a atrapalhá-lo. Quando começava a irritar-se, não demorava a levantar a voz pra ela. Gostava de socá-la na cara. Manchar o rosto bonito e moreno, deixa-la com a boca inchada. Depois ria. Deu motivo mais que o suficiente para uma sova! Depois ela ficava aos cantos, chorando. E tinha aquela mania de desaparecer por longos períodos. Deveria dar-lhe nova surra, pra que aprendesse a ficar sossegada? Ao chegar em casa, encontrou Carmen no escuro.
___Há algo que quero lhe falar. - Disse ríspida.

O lugar era coberto de uma fumaça esverdeada que subia por ralos de furos pequeninos incrustados no cimento cinzento. As paredes eram tão grossas quanto feias. Haviam excrementos a um canto, sua a cabeça rodopiava. Sentia uma espécie de amortecimento nas pernas enquanto caminhava devagar, tentando afastar-se do cheiro forte de mijo e merda. Viu olhos esbranquiçados fitarem-lhe de cantos escuros, e sorrisos amarelos extremamente abertos.
___Bem-vindo disse alguém.
Quando as coisas começariam a fazer sentido?

Agarrou-lhe o pescoço, mas ela foi mais rápida. Socou-lhe a cara com precisão cirúrgica, com uma rasteira rápida colocou-o ao chão e em seguida, tinha-o imobilizado entre as pernas. Nunca havia notado como eram musculosas essas pernas. Muita coisa fazia sentido. A arma saiu de trás da calça, e ela mirou-lhe entre os olhos, sorrindo-lhe irônico. Sentiu-se leve. Sorriu.

A casa da tia deixava-lhe irritado pela falta do que fazer. Não havia nada na tv, não tinha computador por perto, sítio maldito. Subiu as escadas com cuidado, era madrugada. Acendeu uma vela e excursionou pelos quartos do andar superior. Chegou ao quarto do irmão morto. Tinha um irmão gêmeo, idêntico. Marcelo.
Quando a luz escorreu pelo aposento, iluminou coisas que ele mesmo gostava muito. Coisas como a bola de futebol que usavam para jogar pelada de manhãzinha, e o barquinho que ganhou do pai. Figurinhas espalhadas pela mesa, e a agenda que deixara pra trás. Quando mesmo que o desgraçado tinha morrido? Só lembrava que havia sido de uma forma bem estranha. Abriu a agenda e viu a moça a fitar-lhe, numa das muitas fotos que tiraram na Argentina. Um momento, essa era Carmen! A esposa do irmão, aquela que a família não conhecera. Que a família não tinha chegado a ouvir falar sobre. A esposa que ele, nunca conhecera. Entretanto, lembrava muito bem dela.
___Lembrou de mim enfim - disse Carmen silenciosa como um gato, sobre a janela aberta do quarto.

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