Carne trêmula. A frase ainda trêmula nos meus lábios, sonora, repetindo as sílabas. Trê. Mú. Lá. Um filme, um livro, parte de uma poesia. Uma junção de palavras que me veio com o vento, esgueirando-se por bocas alheias e navegando no meio dos outros barulhos. Uma voz feminina, mas grave, como de uma cantora de cabaré.
O “carne” tinha sido pronunciado com uma prolongação, como em arara ou saíram. Era carne, não com o erre rouquinho das francesas, mas com o erre firulento dos apresentadores da rádio antiga. Houve uma risada na sequência, mas não uma risada de graça a uma anedota, mas aquela risada que as moças ainda esboçam quando tratam de segredos. De coisas proibidas, de coisas impensadas.
A “Carne Trêmula” e a risada vieram de algum ponto entre os muitos bancos daquela praça, ou mesmo da grama verdinha daquele dia nublado e ventosamente frio. Talvez de um lábio somente, talvez de dois. Talvez não tenha existido. Talvez a frase fosse outra. Mármore frêmita. Cofre Estrela. Barney e Sêmola.
O importante de tudo não era a frase mas o vento. O vento que uivava agourento uma chuva feia que daí viria, e fofoqueiro, vinha a trazer os ditos dos outros, fazer confusão. Anunciar uma tempestade que romperia com as conversas roubadas, tornando impossível os diálogos, enchendo o ar de cheiro de terra úmida e barulhos pra dormir. Pensei se o vento me escolhera a frase do biscoito da sorte, para que eu refletisse sobre a vida, sobre o mundo.
E senti novo ventinho gelado na espinha, a ultrapassar os limites da blusa de lã pelos malditos buraquinhos. Carne Trêmula. Há.
- Location:casa
- Mood:
chipper
___Bonita pai.
___Gostosa rapaz!
___Gostosa?
___Isso!
Em casa, minha mãe ficava "fula". Uma criança não deveria falar aquelas safadesas. Lembro que quando ouvi a palavra menstruação a primeira vez louco que era pelo significado de tudo, perguntei insistentemente o que significava. A Mãe irritada dizia que eu não tinha idade pra saber. Eu nunca tinha idade pra saber de nada. Com pouco mais de seis anos tive um sonho com uma menina nua, e ela me convidava a fazer coisas que eu não entendia. Ainda com 6, meus tios colocaram uma fita da "Branca de neve Pornô" para assistirmos, achando que era a tradicional, e lembro que não entendia porque a Branca de Neve Mulata insistia em tomar sol nua no pátio, porque ela fez coisas com o caçador pra ele deixar que ela fugisse, e porque o Príncipe que já tinha se enrolado na cama várias vezes com a madrasta ficava com a "mulata das neves" gritando e berrando em cima da cama. Era tudo estranho e eu era realmente inocente demais. Um pouco mais velho, comecei a conviver com uma menina que se aproveitava de mim para ser seu marido, ficar o dia todo no escritório e dar longos beijos de despedidada e de retorno, e fazer namoricos na cama como os adultos faziam. Acho que tive minha primeira ereção ali. Queria beijá-la o tempo todo e me esfregar no corpo dela, sem ao menos fazer idéia do que aquilo significava. Era tudo confuso e bizarro. Por algum motivo passei a notar de forma diferente a beleza das moças nos catálogos de calcinhas que deixavam lá em casa. A notar as artistas que rebolavam nos filmes e que apareciam as vezes só de sutiã. Uma vez uma mostrou os peitos, e fiquei maravilhado, e minha mãe me mandou dormir. Acho que tinha 9 ou 10 quando um de meus tios me contrabandeou uma Playboy da Isabela Garcia além de umas revistas mais explícitas. Guardava ela sob o colchã para admirar quando estava sozinho, longe do olhar inquisidor da mãe ou da avó. Nessa época, a molecada da rua tinha mania de inventar que era namorado das atrizes gostosas. Eu era namorado da Isabela Garcia, mas ninguém sabia porque. Eu tinha um amigo na rua de traz que gostava de contar histórias de sexo, que ele lia ou assistia nos filmes. Ele desenhava as posições na areia as vezes, hoje me pergunto se não se excitava fazendo isso. Uma vez falou de um filme de um homem que tinha um pau na cabeça, e comia as garotas como que dando chifradas. Nunca acreditei, mas era divertido ouvir.
Minha formação sexual foi isenta de "É o tchamzisses", mas recheada de Pornochanchada, e Cine Privé na Band, Com Emanuele que não mostrava nada. É quando você percebe que está crescendo, que está percebendo as pessoas de outra forma, e que as mulheres tem muitas áreas para se passear os olhos, apesar de eu sempre ter sido muito sútil nessas observações. Depois que você começa a conhecer pessoas, começa a entender a necessidade de uma cabeça que se encaixe naquele perfil todo, de uma personalidade que você não queira se livrar depois de uma noitada, e de como é bom ter aquela coisa de cumplicidade, aquele clichezão bom que os relacionamentos trazem e que o tempo vai tranformando. Você nunca imaginou quando tinha 13 anos e batia punheta frenéticamente pensando nas musas de lingerie (ou sem nada) que ficaria todo bobo vendo a namorada ,vestindo seu camisão velho como pijama e dançando AC/DC em cima do colchão, com o sorriso mais besta do mundo.
O som daquele beijo, baixo assim, bastou para deixar mudos todos os outros sons. Ficou único e perfeitamente audível. Um pouco estalado, sorvido de leve, com um toque de ansiedade breve.
Estavam fechados os olhos dos dois, como que a aguardar algum sinal externo de que aquele momento já tinha chegado ao fim, que alguém precisava ir embora, erguer-se, desamassar as roupas, reorganizar os pensamentos e dar o fora dali. Os milésimos de segundo que duraram o toque daqueles lábios agourentos, antecipadores de despedida, pareceram querer dilatar-se para engolir átomos e mudar alguma fórmula relativa e estenderem-se por todo um tempo maior, mesmo que pouco, um tempo suficiente, mesmo que nunca o fosse.
Ela foi quem se levantou. Desajeitada, derrubou parte do conteúdo de um copo de chope que repousava a frente dele, a poça úmida escorrendo pelo balcão sobre a calça dele, ela nervosa. Nada disso tinha mais importância. Ela desculpou-se, trocou uma ou duas meias palavras, ditas de uma forma rouca e desnorteada, e ele concordou com todas com meneios de cabeça, mesmo sem ter compreendido qualquer uma delas, a voz presa na garganta, embargada pelo álcool e lágrimas curtidos numa mistura cáustica que o fazia pigarrear. Ele podia sentir o cheiro dos cabelos dela dali, se ajeitavam de leve, enquanto ela passava os dedos entre eles, aflita, estranha. Ela caminhou a passos duros até a porta, tentando manter os olhos avermelhados em pontos fixos aleatórios, distantes da direção dele. Ele ergueu a mão para pedir outra cerveja, um sorriso pálido, costas retas, expressão austera. Ela ergueu o braço para chamar o homenzinho do taxi, que não parou, claro. Os olhos marejados e claros, continuavam fixos e duros. Ela mordeu o lábio com força até arrancar pele, até o sangue escorrer da ferida. Ele enfiou as unhas na madeira até senti-las a ponto de soltarem-se, embranquecendo-se com a falta de circulação. Encostou o punho fechado na cabeça, apertando-o contra a testa, olhar fixo no copo, uma marca vermelha e profunda de dedos , avermelhada e reluzente .
Na rua, Bartolomeu acendeu o cigarro dela, isqueiro em punho, a chama surgiu do nada como sua presença, sorrisão largo no rosto. O dele.
No bar, Dorotéia, paixonite dele da adolescência e garçonete mais boa, deu-lhe bola. Achou-o sensível, um home chorando e talz. Queria um desses, ela teria dito. Conseguira arrancar um sorriso.
Se encontraram exatos quinze minutos e cinqüenta e três segundos depois, no ponto de ônibus em frente a igrejinha onde ele a levava todo final de semana, onde ficavam juntos até que o ônibus dela chegasse para levá-la pra casa da avó. Isso foi antes do apartamento, de morarem juntos, e dos planos. Sentaram-se um ao lado do outro. Conversaram. Relembraram. Riram. Ela pediu um abraço. Ele deu.
Atravessa então a calçada molhada, equilibrando-se no meio fio como o equilibrista na corda bamba. O vento soprando frio no rosto muito pálido de doente, o narigão-pimentão. Os barulhos dos carros parecem gargarejos. As pessoas parecem gorgolejar enquanto falam e tudo é leitoso e denso. Ele desequilibra-se na parte mais difícil, a grande poça de lama escura que reflete sua própria expressão de cantarolante. Alguns minutos e mais equilibrismo e pára um pouco para respirar, garganta seca gelada de ar de tarde chuvosa. Inspira. O ônibus é cruel. Aproveita-se da distração para passar em alta velocidade próximo de mais do meio fio, fazendo um túneo de vácuo assustador, tirando um fino do ombro, fazendo o sujeito sobressaltar-se e fazer xingamentos profanos, xingar o papa, o bispo, a mãe do motorista (por último). Expira.
A noite, após um sono mais que justo e repentino, esfrega os olhos e, coçando-se em barulhinhos de pijama, liga a luz do banheiro que sabe que está com defeito, e fica observando-a piscar como numa danceteria, laçando fluorescência pelas paredes e fosforescendo a pasta de dente de mentaplus com micropartículas, iluminando as escovas a voltar suas cabeças cheias de afetação para a direção contrária, iluminando de relance o garoto descabelado que andara tendo crises de ideias durante o dia.
Antes de todo o sono e drama, teria ido até o teatro, encontrando-o fechado, um aviso gigante de que não trabalhavam nas segundas. Escolhera uma segunda. Trabalhavam nas terças, nas quartas, nas quintas, nas sextas. Há! Sábados! Mas naquele dia fatídico e soturno, nada de ingressos de meia entrada para pessoas de compleição inteira. Era um fato. Havia um telefone para ligar para informações, e uma comitiva de orelhões que não funcionavam pelo seu caminho de volta ao trabalho. Ah, sim o trabalho. Acotovelamentos e atendimentos. Pessoas corteses, pessoas descorteses, pessoas odiosas e pessoas cômicas. Pessoas que se faziam de desentendidas, pessoas que se mostravam muito entendidas, e até queriam se fazer entender a força. Todas encotravam a mesma expressão, o mesmo tom de voz monocórdio com as mesmas palavras pronunciadas da mesma forma, fita de secretária eletrônica acionada por um botão invisível. Retirar? Devolver? Sim. Não? Boa noite. Bom dia!
A noite, após o episódio da lâmpada escarnificadora, acordou várias vezes. Deitado de barriga pra cima, o edredon a cobrir-lhe parcialmente, apesar do frio, a boca aberta compenetrada. Fitava o teto a procura de uma mancha em formato exótico, que lhe inspirasse a contos excêntricos de viagens mirabolantes a grande Àfrica Setentrional, talvez no lombo de elefantes selvagens e o ataque de indígenas antropófagos o levasse até a descoberta da estátua de uma divindade profana desconhecida, Mishtrars, a que não dorme. Talvez encontrasse próximo a extremidade, um relevo em forma de duna, que inspirasse a um encontro na praia, uma crônica de dômingo com uma família farofeira e suas desventuras complexas ao enfiarem toda a tralha mais as crianças em um carro e partirem para uma praia do litoral de Florianópolis, e os problemas de um pneu furado e uma "boa alma" mal intensionada no meio da estrada que surge com um cutelo para ajudá-los. Mas o teto, azul e liso, sereno e dormente não mostrava-se convidativo nem inspirador. Não lhe deu leões, nem homens armados e nem mesmo contos de boteco. Insistiu em tentar dormir.
Acordou com o sol açoitando a cara, todo torto, dedos dormentes, marca de baba que escorrera-lhe do canto da boca, seco, que esfarelou-se assim que ele esfregou a face num suspiro de dorminhoco. Era cedo, e a posição estranha que dormira sobre o notebook, por não ser um ginasta especialista em alongamentos, custava-lhe nos momentos alguns "ais" sonoros. Na tela, um título, que não lembrava de ter escrito, centralizado, todo em letra maiúsculas imponentes. Talvez não tão inovador, mas com algo de petulante, algo de novo-velho, até cotidiano. Uma mistura de muitas coisas, boas e ruins, um nó na garganta ao passo que era ilustrativo e até infantil, dependenddo. Um pontapé pra uma boa história, talvez mais de uma. Poderiam passar dias utilizando conceitos filosóficos para explicar aquele título que era mais profundo que a garganta do Zaratustra. A tecla do backspace agiu rápida. Fechou a tela. Dormiu despreocupado.
- Location:em casa
- Mood:
blah - Music:Swades - A.R. Rahman
***
___Então não lembra de nada.
___...
Ela mordeu o lápis impaciente. Ainda esfregava o pulso arrouxeado, forçado pelo segurança que viera com ela na van, removendo-lhe dolorosamente a esperança de usar o gravador que guardara entre os seios num compartimento secreto do sutiã. Foi impulsiva, se deu mal.
___Olha, eu não gosto de perder meu tempo.
Ele ergueu-se. Foi até a sala, dando-lhe as costas, devagar. Sentou-se ao piano. Acariciou as teclas passando os dedos pelas extremidades,lentamente.
Ela foi atrás, enfesada. Queria dar-lhe uns tabefes. Os três primeiros acordes, decididos, fizeram-na saber qual era a música, na mesma hora.
***
Ela estava linda, em seu vestidinho azul, e em sua meninice de dez anos. Era um sorriso maior que o mundo, e uns cachinhos de boneca alemã. Não parava quieta no colo da mãe. Queria dançar a Moonlight Sonata balançando-se, correndo e fazendo movimentos de princesas em reinados, como fazia em casa. Mas o fato de aquele ser um concerto do pai, reforçado pela cara de "não faça isso ou..." da mãe eram suficientes para manter sua bunda sobre as pernas da mãe. Os caracóis rodopiavam no ar enquanto os olhinhos castanhos acoompanhavam as mãos sobre as teclas. Foi assim que ela que notou as lágrimas nos olhos do pai, e a forma como crispavam-se suas mão, tremendo lentamente. Foi ela que notou que ele sentia dor, ee que ele se esforçava de uma forma estranha. Ela que sabia decor os movimentos daqueles dedos. E foi ela que gritou alto quando ele finalizou a canção, a lua imensa iluminando a negrisse dos cabelos e do piano, e o corpo que caia estrondoso sobre as teclas.
***
Ficou imóvel ao lado do piano. Não demonstrou qualquer emoção, senão uma petulante expressão de desprezo. Mas dentro de si, em si apertava-se a garganta e forçavam os olhos a lacrimejarem. Ao voltar-se violenta foi-se ao chão um vaso. Ela olhou-o. Ele parecia em transe. Ela abaixou e começou a juntar os cacos. a cabeça forçava pra baixo, pensamentos e angústia. Levou os cacos ao lixeiro e viu que havia uma xícara de café preto fumegando. Pegou.
___Não.
Ela voltou. Ele continuava tocando.
___Não o que?
___Não lembro.
- Music:Moonlight Sonata
Ele achava que a culpa era da Verônica. Era e não era. Talvez dele mesmo, ou não. Ela tinha sido sacana, mas pra isso ele teve que ser sacana antes. Teve que parar de ouví-la. De fingir, de prometer, de jurar sem ter a menor vontade de cumprir. As coisas estavam uma merda mesmo. Meio que tinha que ser. É. Tinha.
Estava sentado na varanda. Era uma casa grande, colonial. um Matão. Tinha árvores por todo lado, um sol brilhante da porra, um lago limpinho, patos, passarinhos. Um Verdadeiro inferno pro Gilberto. Gilberto era ele claro. O garoto estranho, cabelos desgrenhados, cumpridos, olhos chateadamente negros, que observavam a tudo por trás das lentes do óculos azul, com um olhar distante, perdido entre contelações caóticas. Distraído. Tinha um andar esquisito, meio arrastado, meio preguiçoso. Branco de falta de sol. pegara algumas queimaduras com aquele sol tão perfeito pra torrar as pessoas. Lia desesperadamente, mas negaram-lhe os livros. Todos.
Engordara uns 3 quilos de não ter nada pra fazer. Quando não estava nas palavras cruzadas, ou inventando gororobas pra comer, estava lá, na varanda tomando café eternamente. Comendo queijo e pão. E Maionese. e Café. A única coisa que fazia razoavelmente era café. Instantãneo. Batia o pó com um pouquinho de leite e açúcar até espumar. Depois metia a água quente. Verônica que ensinou, mas o dela era bem melhor. Olhando desanimado o verde que nunca se acabava, mordeu o canto das unhas, tirando um bife sanguinolento. Já não tinha mais unhas e os dedos já machucados sangravam pela insistente mordição em busca de restinhos. As vezes cantarolava. Assoviava sinfonias de nãnãnã, Bethovens e vivaldis alegrinhos. As vezes parecia que os pássaros o acompanhavam. Lorota!
Porquê não podia nem mesmo ouvir música. Um rádio, sei lá. Um toca fitas. Não, eles não deixariam.
Quase sempre durante os cafés solitários, arrastava a chave da casa no tampo de madeira da mesa, desenhando diagramas. Riscando circuitos. Matutando. Fazia diagramas complexos com gravetinhos que as aves ciscavam e alteravam. Caos. Que merda.
Tinha levado algumas bicadas dos gansos que chutou na manhã daquele dia, não aguentava o barulho que faziam, não o deixavam dormir. Ainda não conseguira acertar o sono, acostumado com as madrugadas, com o sono diurno. Odiava tudo aquilo. Sua penitencia, oitocentas milhões de Ave-Marias ecológicas num paraíso Caipira. Merda. Merda!
As vezes ficava olhando atento através das árvores, com a impressão de ter descoberto uma câmera, um binóculo. Por onde os filhos da puta ficavam espionando? Big Brother de uma pessoa só. Vendo ele cagar. vendo ele mijar? Saco.
Naquele dia, notou que havia alguma coisa que se aproximava. Um veículo. Vinha por uma daquelas estradinhas de barro baita ruins, levantando poeirão. Uma van, sei lá. Não era o povo que trazia a comida, eles eram diferentes. Parou na cerca de arame. Alguém abriu a porteira. O carro entrou.
Os olhos fixos, o sol refletindo no óculos, atrapalhando a observação. O Carro chegou. Os dedos sangravam, gosto de ferro na boca. Ajeitou o óculos, estralou os dedos. A porta abriu. Ela era toda cachos e sorrisos. Mas ao olhá-lo não sorriu. Foi Séria.
Apertaram as mão, os vultos contra a luz de um sol que ameaçva se por, acabando com o inferno de sua presença. Caras de colete cinza foram retirando parafernalhas do carro, e dois policiais bem mal encarados e resmungões deram-lhe o olhar de "cuidado ou atiro no seu cuh". Simpáticos.
___Quem são...
___Quero saber tudo sobre o assasinato. Começe.
E ela ligou o gravador.
- Location:Casa
- Music:Three Days Grace - Wicked Game
Tinha a mania de tomar banho sentada. Levava todas as coisas necessárias para o chão com ela: Xampu, condicionador, sabonete, esponja, gilete... um verdadeiro arsenal. Enchia os cachos com xampu especial, e cobria a cabeça com espuma suficiente para o corpo todo. Durante o enxágue, com os olhos apertados, esfregava as mãos no rosto. Deus abençoe os xampus que não ardem nos olhos. Na sequência, enchia os cabelos do condicionador com cheiro cítrico e esfregava de leve o nariz. Um ritual. Enquanto a química maligna e acondicionadora agia no couro cabeludo, enchia as pernas de espuma obtida pela fricção quase insana do sabonete molhado nas mãos.
Nesse instante o celular começa a tocar. Em outra ocasião estaria cantando algo dos beatles como "Blue Jay Way" ou algo ainda mais desconhecido enquanto raspava as pernas em movimentos uniformes e perfeccionistas, mas com o som estridente do celular tocando "Ring of Fire", ela teve que mudar o repertório. Paciente, continuou a raspar-se. Pegou o Chuveirinho e mandou pelo ralo, literalmente, toda a espuma e pelos, e continuou a ensaboar-se em várias outras partes. Cobriu os seios, ensaboou a barriga e o púbis e deu uma risada quando o jato morno do chuveirnho atinjiu-lhe. Riu-se duas vezes. Desligou o pequeno e o grande volou a soltar água com força. Tirou o resto do condicionador da cabeça. Ainda sentada, e ainda cantarolando Ring of Fire, visto que o celular recomeçara a cantoria pela terceira ou quarta vez, desligou o chuveiro e enrolando todos os cabelos numa mecha gigante, jogando-os para a frente da cabeça, passou-lhe as mãos, apertando os fios até as pontas, tirando o excesso de água. Ficou ali cantarolando a música, mesmo com o celular agora mudo. "Deve haver umas 70 ligações não atendidas no visor", pensou-se. Continuou paciente com o trabalho. Ergueu-se. Pegou uma toalha, branca, com a qual enxugou devagarzinho os pés, entre os dedos, depois as pernas, embaixo dos braços, as mãos, os seios, o rosto. Enrolou-se. Esfregou o espelho embaçado com as mãos, fazendo um barulhinho irritante com as unhas, que provocou-lhe calafrios. Secou os cabelos com cuidado com a toalha laranja. Era uma toalha tão laranja que acreditava piamente que brilharia no meio de um apagão. uma mentira deslavada, claro.
Deixando a toalha de lado, cobriu a mão de creme, e escolhendo algumas mechas ao acaso foi separando cachinhos e passando-lhe o creme até as pontinhas. Fazia caretas no espelho durante o processo. Suspirou-se.
O resto deveria ser rápido, como de costume. Roupa já escolhida, maquiagem bem básica, café intantâneo bem forte, uma torrada com manteiga entre os dente e uma pasta imensa. Câmera. Cadernos de anotações. Um gravador. O telefone estava tocando novamente quando lembrou-se dele sobre a mesinha da sala. Voltou. Atendeu.
___Indo.
___O carro já tá aí em baixo.
___Que carro?
___O que vai te levar pra ver ele. Hoje.
(continua)
- Location:Minha casa
- Music:cara estranho - Los Hermanos
Idiota. Ele olha a minha bunda, bem como eu queria. Quanto tempo mais pra me fazer uma proposta? Vai querer que o chupe, como ele imaginou. Vou me abaixar, assim, mostrar a calcinha. Ele deve estar louco, de hoje não passa. Vai me levar pro banheiro dos guardas, lá só eles entram. ele vai querer me enrabar. Tenho certeza.
Eu vou lá. Ah meu Deus, baixou de novo. Tá fechando a loja. Caiu a chave. Pai do céu...
Anda cretino, vem que teu sonho vai quase virar realidade.
Eu falei. falei que ia ajudar, e ela sorriu. pego a chave e toco de leve na perna dela. de leve. Ela reagiu, sorriu. Meus pelo arrepiaram, o pau estaquiou. eu pagava muito pra comer essa puta.
Como ele é patético. Mal tocou no meu tornozelo e ficou de pau duro. Fica tarando a minha xana, não desvia o olho. Passo a mão no pau dele, assim de leve. Não, não, passo no braço, vai desconfiar se eu for oferecida. Vou sorrir. ele não para de olhar o decote, não posso ficar constrangida. Queria ir pra um lugar mais ... o que eu vou falar? Um lugar calmo. Mas tenho que deixar claro que não quero sair.
Ela quer sair? Um restaurante, um barzinho? Que merda, queria comer ela aqui. Pego na mão dela, isso... Perguntar onde a vadia quer ir, ah, eu comeria ela aqui mesmo. Onde ela quiser, se me der essa xana. Ai, meu pau...
Que idiota, quer me levar pra sair. Ele não entendeu, quer que eu desenhe. Desenho no peito dele, vou falar que quero que me foda aqui. Mas não assim, tenho que dar uma de pudica. Isso, um lugar mais calmo por aqui. Dizer que naum aguentaria ir longe.... Ele ainda pergunta porquê, o filho da puta. Vai dizer que não sabe, né. Tá jogando o meu jogo. O trocador dos guardas? Vou me fingir de surpresa, he, panaca!
Cara, eu não acredito, ela quer me dar. Acho que ela me dá até o cuzinho, essa moça tá em ponto de bala. Ah, quase pegou no meu pau, vou levar ela pro quartinho. Topou! Cara, hoje vou me dar bem, e logo com a dona gostosa. Levar ela na salinha, tem o sofá, tem doce, e vai ter foda! Há, há, eu sou demais.
Esse é bem o caminho. Eu me lembro vagamente. Ali a salinha, ele abre a porta. Passa a mão na minha bunda, vou fazer cara que gostei. Me empurra contra o armário, quer arrancar minha calcinha. Lá está a mesinha, e atrás o quadro. Levanto o quadro e finjo surpresa, tem algo lá dentro, um fundo falso. Ele se assusta, puxo o colar. Coloco no pescoço, sinto a aura que emana dele. Ele acha estranho mas...
Ela levantou o quadro e tinha uma parada com uma pedra que brilha, e chegou e colocou no pescoço. Não acho boa idéia, deve ser do chefe, mas ela me puxa e encaixa gostoso. Minha calça quer explodir eu vou apertar os peitos. ela tá gemendo... Isso é mentira.
...acontecendo exatamente como eu queria já sinto a pele dele. Ele se despiu, tiro a roupa com rapidez. A aura do medalhão me ilumina inteira, sinto o corpo ardendo em brasa. Meus olhos refletem o mundo. Meu lábios sentem o gosto do mundo. Minha mente dói em lascivas de gozo, sinto o coração palpitar, quero...
...meu peito arde, que tesão do caralho. Sinto ela rebolando quente como se fosse chama. Sinto a pele dela como se encandescente dominasce a minha, como se a mente...
...a mente dele penetrasse em meu âmago,, como se seqüencias inteiras se multiplicasse em..
...em extenções de algo mais profundo e maior, sabendo que o plano...
...do plano, o plano formado...
...o objetivo alcançado...
... o ato consumado...
...a pele, funde... eu vou...
...eu vou...
Sempre sobra pra mim. Sempre tenho que limpar a porra desse lugar. Quero só ver amanhã, esse guardas sempre trazem mulher pra cá, aí tem que ficar limpando porra por aí. Odeio isso, não sai do interior, pra me sujeitar a essa cretinice. E eu que queria ser professora, e só me fodi. Ai, não deixei a comida pra Neuzinha, quero ver quando acordar de noite, vai encher o saco de manhã. O que é isso, olha um brinco bonito, coisa de rica. Vou catar, ninguém vê. Brinco brilhante, coisa cara. Será que o Zé...
Opa, o que é essa coisa aqui no tapete? Essa gosma estranha, parece vermelha. Mas que merda é essa? Essa coisa se mexe! Parece um... Meu Deus, o que que É ISSO? Virgem, a coisa tá mexendo. Ela tá chegando perto. Deus me protege, que essa coisa tá arrastando... Meu Deus, socorro, me protege, ela tá vindo. Eu tenho que chamar, eu tenho que, ah Deus, me ajuda mãezinha, que merda, eu tenho que passar, a escada, eu não consigo, eu vou, a porta, rua, tenho que ir, a chuva, não, lá em cima, rápido, não pode, me ajuda, eu quero, não, não eu...
...
Lençóis. Amoras.
Lábios. Batom. Amora e lábios. Suor. Pele.
Toque. Carícia. Armadilhas. pescoço. Braços. Enlace.
Jugular. Lâmina. Brilho. Rubras amoras. Rubros. Dedos
incenso. Travesseiro. Abafados, os gritos. Beijo suave. Ternura.
Meias, compridas. Calcinha. Mão sobre a mesinha. óculos. relógio. Papéis. Recompensa.
Gatinhos de porcelana. Cigarro mentolado. idéias em ordem. Banheiro. Relaxante. Seios. Nádegas. Umbigo. Cabelos.Tesoura. Cabelos. Olhos. Água.
Espelho. Língua. Sorriso. Toalha. Perfume. Gotas.
Saia. Sapatos. Unhas. vermelhas. amoras. despedidas.
Saiu rapidamente dali, um véu sobre o rosto levemente ruborizado. Sentou numa das mesinhas para o café e tomou lentamente um copo de suco de laranja, manchando o copo com o vermelho dos lábios. Ao tocar de leve a cinta liga, a arma disparou repentinamente, manchando-lhe a cashimira branca. Caiu sobre o breakfest lentamente, mas com muita classe. Em menos de cinco minutos a mesa estava pronta para o próximo.
- Location:House
- Mood:
bitchy - Music:Twenty Two Fourteen - Album Leaf
___Foda-se.
Engoliu doses fartas e atirou-a contra o bote que lentamente dirigia-se para a imensidão. Limpou as botas, e tornou a ajeitar os "documentos" na calça jeans apertada.
Jeanice esperava-o no fusquinha prata, maquiando-se no espelho do veículo. Gostava de passar assim o tempo, quando nada tinha a fazer, o que era freqüente. Tinha os lábios tão pintados que podia chupar muitos caras e continuar com o batom intacto. A propósito, desenvolvera uma técnica pra isso. Não queria ver Olívio que, provavelmente, estava afundando numa merda de bote no meio daquele mar podre e fedendo a merda. Riu-se. Parecia na verdade, bastante adequado. Deixou escapar uma lágrima, e toda feliz, pô-se a limpá-la, restaurando a marca que deixara no meio do pó branco. Steven voltou mancando até o carro, o jeans manchado de vermelho bem próximo ao joelho, tivera sorte.
Entrou no carro, uma música alegre e antiquada tocava em uma rádio que desconhecia, aliás como tudo naquela região.
Ouvira falar nos nórdicos, e nas cerimônias de churrasquinho da morte, mas aquela palhaçada já era demais. Mas tudo bem, tudo bem. O pior ainda estava por vir.
Jeanice ajeitou o decote e passou pó entre os seios, disfarçando uma cicatriz clarinha em forma de meia lua, quase imperceptível (agora totalmente).
___Então... é isso. Arfou Steven.
___Isso o caralho. Dirige aí.
___Olha a boca.
___Boquinha de veludo.
___Vadia. Vagabunda.
___Vai me engolir querido. Até chegarmos lá.
Não sabia onde estava com a cabeça por prometer coisas a um moribundo fudido. Tá que a mão estava gelada, tá que ele sussurrava de uma forma que lhe doia o peito de lembrar mais... aquilo já era demais.
Rodou a chave e acelerou. Ela voou pra trás, chocando-se contra o banco, derramando todo o conteúdo fedorentamente doce de um vidrinho lilás.
___Filho da puta! Essa porra é muito cara!
___Cala a boca, a gente tem muito o que rodar ainda.
___Foda-se.
___É impossível sair alguma coisa dessa tua boca que não seja suja vadia?
___Impossível... Tudo que entra ou sai da minha boquinha é suja. Tudinho, até mesmo isso que tais pensando.
___Nem pensei nada.
___Nem adianta olhar os meus peitos, sou muito cara pra ti seu puto.
___Cala a boca...
___Vem calar!
Quando chegaram na cidadezinha, seguiram as placas até a igrejinha, desceram do fusca e caminharam pela ruazinha de pedras em direção a Santa. Alguns fiéis olharam-nos como que ofendidos pelo nascimento dos dois, e arrogantes, afastaram-se.
Deu o maço de dinheiro a Jeanice.
___Vai lá.
___Já disse que...
___Nem vem porra! Tu prometeu pr'aquele merda, agora te manda.
Ela olhou ao redor, e viu milhares de olhos fitando suas pernas e decote, com repugnância, o que a fez sorrir. Sabia que aquele olhar disfarçado de puritano só demonstrava ainda mais o desejo destes de comê-la o quanto antes. Naquele lugar, com certeza, teria clientes, mas tinha prometido isso e,agora (merda!), tinha que cumprir.
Colou o chiclé embaixo de um banco e foi até a água benta onde benzeu-se. Caminhou rebolando até o altar, e beijou de leve a cabeça da santa. Colocou a carta e o dinheiro sobre o altar, benzeu-se novamente e foi saindo. Na rua, uma multidão de curiosos já os esperava. Sairam cantando pneu, deixando um rastro laranja de barro seco na estradinha que se afunilava a medida que aproximava-se do horizonte. O padre, confuso, aproximou-se da imagem, e pegou o maço de notas de cem, e o envelope, destinado a santa. Levou-os até a sacristia, com um largo sorriso. Abriu com cuidado a carta, desdobrou o papel. Muitos aguardavam para desvendar aquele mistério todo. Após pigarrear, o pároco leu em voz alta, enquanto beatas e moradores em silêncio mortal, ouviam.
"Padre Walter. Por favor, compre um modelito decente pra essa mona, que esse véozinho tá um h-o-r-r-o-r!
Olívio"
- Mood:
crazy
Seu José gostava da vida simples do campo, da colheita, das galinhas. De acordar com o sol, de mascar azedinho e contar causo.
Mas um dia, encheu-se daquilo, da Iolanda berrando-lhe ao ouvido sobre as "dificurdadi".
E deu uma louca no velho e juntou os trapos pra ir embora. Ajeitou a cinta deu uns tapas no barrigão e colocou-se na estrada.
As coisas poderiam ser pior, mas Dona Iolanda tinha sorte de ter os filhos quase "homi feito", eles podia ajudar na roça. Mas a coitada nunca que ia se conformar com isso.
___Quem precisa daquele véi miseravi?
Passaram-se 8 anos. Os filhos casavam-se com as belas e as feias da redondeza. Eram 10 ao todo, 6 mulheres e 4 homens, fora os que tinham morrido de "mal de parto".
Dona Iolanda sempre se orgulhou de ser boa Parideira e fez questão de exibir o barrigão de grávida pra todas as "magrelas secas da região", e agora colhia os frutos de toda aquela trabalheira.
Eis que passado aquele tempo todo, ás vésperas do casamento do Aquino, o Caçula, aparece o seu José: Cabelão branco, paletó risca de giz, todo perfumado. Veio de carro novo, um Golzinho 92 bonitinho demais, com um monte de presente pra família toda. Dona iolanda Amuou-se e, trancada no quarto, pô-se a choramingar e resmungar. Seu Zé foi lá conversar com ela, pra tentar se entender. Fez jura de amor que não acabava mais, disse que... ah, deixa ele dizer o que ele disse:
___Má tu é a frô mais fromosa du meu...
___Nem adianta zé. Nem vem todo tronxo. Eu nem ti amu mais.
___Mentira muié. Pruquê num casô inté hoje enton?
___Farta de oportunidadi. Eu sô véia, ninguém mi qué.
___Eu ti queru.
___Tu num conta sô.
E por ai foi a conversa. Um rapaz que tomava café na varanda do sítio vizinho observava-os divertido, perguntando-se como aquele povo podia ser tão ingênuo.
Tentou clicá-los, utilizando o zoom da tele objetiva, e as fotos ficariam ótimas.
___Foi uma grande idéia vir pr'estas bandas com a pentax velhona, e a câmera digital novinha. - Falou para Jeanete que se remexia debaixo do lençol, com grande preguiça.
Entrou, abraçou-a, deu-lhe um beijo terno na testa e disse que ia sair pra tirar umas fotos do campo, e que voltava bem de noitinha.
Ela disse que ficaria lendo artigos para a tese de mestrado. Com um sorriso amarelo, ela despediu-se, e mal o homem saiu, correu até o quarto para se perfumar.
Deitada na cama, com o vestindo escorrendo pelas pernas, entrevendo as coxas morenas da moça, tira debaixo da capa do travessseiro uma foto do Zé, e põe-se a beija-la sôfregamente.
___Aqui, vou ser a única do Zé. - Pensou. Ou quase....
- Music:Moby - One Of These Mornings
Ao olhar para o lado viu como que em câmera lenta uma pomba branca voar da praça, batendo as longas asas vagarosamente, a luz cegante por detrás do animal. Acompanhando seu vôo, notou que havia uma bela moça a olhar vitrinas, e esta, voltou-se na mesma vagarosidade da ave, encontrando seus olhos com os dele. Ele franziu a testa, estranhando completamente toda aquela situação. Ela sorriu vagarosamente, enquanto os acordes do violão de um mendigo começou a sobressair-se a voz da multidão, como se esta tivesse emudecido. A mesma brisa conveniente ergueu de leve o vestido da moça, belíssima, de uns profundos olhos azuis e de uma boca muito carnuda e vermelha. Ela sorriu constrangida, enrubecida. Ele olhou-a incrédulo, e sinceramente desinteressado. não tinha tido um dos melhores dias, ainda mais tendo que acordar de manhã cedo depois de passar a madrugada empenhado em trabalhos escolares...
"He's my perfect lullaby... My great dream that finally come true..."
Ele estava boquiaberto. Ela começou a cantar, e instrumentos, vindos do nada, foram adicionados ao fundo de violão que o mendigo tocava sorridentemente insistente. Os olhos da moça brilharam, com o sol girando magicamente de posição e passeando pelo seu rosto de veludo. O Rapaz já não entendia mais nada. Coçou os olhos e tentou responder-lhe, mas surpreendeu-se com a própria voz saindo em inglês.
"I love you, my litlle flower"
ERGA! Fora ele que dissera aquela bobagem cafona, e numa língua que conhecia vagamente? Sentia o corpo impulsioná-lo em direção a ela, involuntário, zumbi, pegando-a pela cintura e beijando-lhe a face. Mas que diabos? Ela abriu novamente a boca generosa e cantarolou em voz de cantora de Soul coisas melosas sobre príncipes e sobre não desistir. Ele tentou desfazer-se do abraço da cantora, mas o corpo já não respondia mais. O Sol, naquele eterno amanhecer, ou entardecer, sei lá, a música que se elevava num refrão chatinho, as pessoas ao redor sorridentes, praticamente propaganda de creme dental. Então num súbito domínio do corpo, empurrou-a contra o vidro. A cena ficou em câmera lenta. Uma lágrima caia devagar da face da moça vagarosa, enquanto ele ainda em câmera lenta tentava fugir. Todos fitaram-lhe como que acusando-lhe da morte de alguma criança. E ainda em câmera lenta, fugiu para o horizonte que nunca chegava, enquanto a moça, apertando contra os belos seios um retrato seu, finalizava a canção com palavras de esperança e amor.
Cai no precipício, que ficava logo no final do horizonte da janela aberta do estúdio de gravação.
- Music:James Blunt - Carry You Home - ERGA!
___Janaina é vaidosa. Me dizia a senhora de branco. Gosta de Perfumes, de mimos. Gosta de rosas vermelhas. Gosta de ser amada.
Todas as tardes eu lia naquela varanda na casa do meu tio. As árvores forneciam uma sombra agradável, e um esconderijo de visão privilegiada. As vezes, eu tinha impressão que ela olhava pra trás, como que a sentir minha presença, o que me divertia ainda mais. Tentava me entreter com os livros de aventura que meu tio trazia de longe, mas meus olhos escapavam sorrateiros das folhas brancas, procurando as curvas escuras da dama que aquecia-se brilhante.
Janaina ergue-se. Lá ia ela em direção ao mar. Ajeita o bikini, bate levemente as nádegas para que a areia abandone a penugen fininha das pernas. Ajeita os panos entre os seios, cobrindo a marquinha leve do sol que escapara por alguns segundos. E se espreguiça com vontade. Todos os dias era o mesmo ritual.
Resolvi falar-lhe naquele dia.
Aproximei-me. Ela ia em direção ao mar em silêncio. Chamei-lhe, "ô moça", mas ela não parou. Chamei-a por Janaina. Ardia-me a curiosidade de saber seu verdadeiro nome. Ela voltou-se, os olhos faiscavam com aquela luz de entardecer. Aproximou-se sorrindo, e antes que ela pudesse falar algo, tirei um vidro de perfume que roubara da tia a pouco, um daqueles pequenos com vidrinho de cristal. Sem pestanejar, tomou de mim o vidro brilhante e ergue-o em direção ao sol para vê-lo refletido em cores inúmeras. A brisa parecia tocar leves acordes gentilmente, como um violão assoprando notas amareladas e marítimas nos meus ouvidos.
Repentinamente, ela tomou meu rosto e beijou-me de leve o lábio inferior, como que sugando deste um pouco do calor febril que me fazia. Senti meu corpo extremecer, e uma tristeza muito, muito estranha se apossar da minha mente, meu corpo tremendo de leve, de frio.
Ela sorriu, vi seus lábios grossos mexerem-se lentamente para pronunciar algumas palavras, antes de mergulhar mar adentro, rápida como um peixe.
Desde então permaneço todas as tarde nessa praia, esperando o retorno da Janaina. Lendo os mesmos livros. 58 anos passam sabe, pesquei bastante nesse mar, vivi bastante. Casei com a Tonhinha e tive você mais os outros. Mas ainda espero por ela, aqui nesse mar onde senti o gosto da Janaina. Salgado, beijo de espuma do mar.
- Location:Minha casa
- Music:When the rain come down
___Bom dia querido.
Acordou em sua cama fofa, e sabia que não estava lá. Fazia parte do programa de defesa avançado, ganhar-lhe a confiança para conseguir informações. Depois fritariam seu cérebro.
___Bom dia Carmen.
Beijou-lhe com naturalidade.
___Tive um pesadelo horrível. Mas muito confuso.
___Carlos ligou ontem a noite, enquanto você dormia. Há uma reunião hoje antes do almoço. parece urgente.
Ela beijou-o. Exatamente como a mulher fazia. Chegou a se questionar por alguns segundos se não teria dormido numa dessas ilusões pré-programadas, a vida toda.
Pegou a pasta. Saiu para o trabalho. Provavelmente os desgraçados o manteriam vivo, tempo o suficiente para arrancarem-lhe alguma informação. Mas ele sabia que não podiam gravar nenhuma informação via impulso neural, precisavam de algo mais concreto, oral. A essa hora, estaria em alguma cama imunda tagarelando como um doido cada vez que "falava" em voz alta. Sabia de todos os procedimentos. Havia inventado a máquina. Tropeçou em alguns popups via retina, e odiou a imagem dupla que deixava nos olhos. Odiava muito tudo isso.
Iria até o trabalho normalmente, quem sabe refazer exatamente os mesmos passos que deu antes da noite de ontem. Espreguiçou-se e seguiu até o escritório. No caminho, viu um grupo de militares se aproximarem. Aí vinha merda.
Eles não perguntaram. Sacaram suas armas e descarregaram-na sobre a nuca desprotegida, e ele pode sentir cada bala atravessando-lhe o crânio, deixando sobre o chão uma papa avermelhada.
Quando acordou na casa velha da tia Rose, continuava gripado. Tinha tido uns sonhos confusos, durante o resfriado. Lera uma revista de ficção no dia anterior para passar o tempo, e agora seu cérebro parecia trabalhar a mil, como que despertado por revelações misteriosas. Questiono-se, elaborou teoremas conspiratórios, tudo fazia mais sentido agora. Mas a pneumonia fizera-o ter algumas alucinações estranhas, acordando do nada em lugares da casa pra onde não lembrava de ter ido, ou vendo coisas estranhas, ouvindo músicas que nunca ouviu antes. Queria dormir, um sono longo sem interrupções. Mas estava difícil.
Carmen tinha a péssima mania de roer unhas, o que não tolerava nela. Pedira que organizasse as coisas, e não fizera. Nada daria certo se ela continuasse a atrapalhá-lo. Quando começava a irritar-se, não demorava a levantar a voz pra ela. Gostava de socá-la na cara. Manchar o rosto bonito e moreno, deixa-la com a boca inchada. Depois ria. Deu motivo mais que o suficiente para uma sova! Depois ela ficava aos cantos, chorando. E tinha aquela mania de desaparecer por longos períodos. Deveria dar-lhe nova surra, pra que aprendesse a ficar sossegada? Ao chegar em casa, encontrou Carmen no escuro.
___Há algo que quero lhe falar. - Disse ríspida.
O lugar era coberto de uma fumaça esverdeada que subia por ralos de furos pequeninos incrustados no cimento cinzento. As paredes eram tão grossas quanto feias. Haviam excrementos a um canto, sua a cabeça rodopiava. Sentia uma espécie de amortecimento nas pernas enquanto caminhava devagar, tentando afastar-se do cheiro forte de mijo e merda. Viu olhos esbranquiçados fitarem-lhe de cantos escuros, e sorrisos amarelos extremamente abertos.
___Bem-vindo disse alguém.
Quando as coisas começariam a fazer sentido?
Agarrou-lhe o pescoço, mas ela foi mais rápida. Socou-lhe a cara com precisão cirúrgica, com uma rasteira rápida colocou-o ao chão e em seguida, tinha-o imobilizado entre as pernas. Nunca havia notado como eram musculosas essas pernas. Muita coisa fazia sentido. A arma saiu de trás da calça, e ela mirou-lhe entre os olhos, sorrindo-lhe irônico. Sentiu-se leve. Sorriu.
A casa da tia deixava-lhe irritado pela falta do que fazer. Não havia nada na tv, não tinha computador por perto, sítio maldito. Subiu as escadas com cuidado, era madrugada. Acendeu uma vela e excursionou pelos quartos do andar superior. Chegou ao quarto do irmão morto. Tinha um irmão gêmeo, idêntico. Marcelo.
Quando a luz escorreu pelo aposento, iluminou coisas que ele mesmo gostava muito. Coisas como a bola de futebol que usavam para jogar pelada de manhãzinha, e o barquinho que ganhou do pai. Figurinhas espalhadas pela mesa, e a agenda que deixara pra trás. Quando mesmo que o desgraçado tinha morrido? Só lembrava que havia sido de uma forma bem estranha. Abriu a agenda e viu a moça a fitar-lhe, numa das muitas fotos que tiraram na Argentina. Um momento, essa era Carmen! A esposa do irmão, aquela que a família não conhecera. Que a família não tinha chegado a ouvir falar sobre. A esposa que ele, nunca conhecera. Entretanto, lembrava muito bem dela.
___Lembrou de mim enfim - disse Carmen silenciosa como um gato, sobre a janela aberta do quarto.
Meu mundo transformou-se aos poucos, isolando os chiados exteriores com os primeiros acordes de “Dear Prudence”. Abri a janela. O carro rodava no asfalto à uma velocidade razoável, o que permitia que o vento sacana entrasse carro adentro e açoitasse meus cabelos compridos. Pus a palma pra fora, pra sentir a chuva fininha e pontiaguda dar-me leves agulhadas. Sorri.
Havia algo de assustador em ouvir Beatles, na forma como o mundo aos poucos se esmaecia e me tirava de sintonia pra um lugar isolado, onde uma Prudence teimosa resolvia frear a moto na rodovia logo a nossa frente, e sair correndo com os cabelos claros flutuando brilhantes no negrume. E lá se vai ela. Ouve-se o silêncio característico de troca de uma música para outra, tempo suficiente para que chegassem a mim algumas conversas entrecortadas que fora de contexto só me deixaram confuso.
"Don't let me down!" Disse-me o aparelho de mp3, trazendo-me de volta da realidade. Interessante o mundo assim. É como se eu estivesse num filme, em uma daquelas cenas em que o diálogo não é importante, apenas as ações dos atores, e a música sobe, tomando conta de tudo, do enredo, do mundo. Cantei em silêncio enquanto balançava de leve a cabeça sem ser notado. "one moooore time!!!"
A escuridão chamou-me a atenção, no ponto em que a bela Prudence atravessava a pista em direção ao nosso carro que parou em um sinal. Debruçou-se sobre a minha janela, pedindo tímida que não a esquecesse, que a colocasse em meu próximo conto. Seus olhos estavam marejados, mas não me convenci.
"A seu tempo". Falei sozinho.
"She's not a girl... who misses much…"
Saberia me dizer quantos alter-egos teriam corrido pelados por esse matagal escuro? Quantos reinos de copas, quantos assassinatos sórdidos? Quantos estupros, quantos piqueniques frustrados? Minha mente funciona a mil, talvez excitada pela velocidade do asfalto que se vai, ou pela música que começava. Teri somente eu, visto Prudence naquele meio-fio?
Sabe, "Happiness is a warm gun" era assim, lentinha a princípio... sedutora, “tchurururururu”. Até que a madre superiora resolve aparecer ao som de uma guitarra rangendo, arma em punho e tudo vira uma baladinha totalmente diferente da do início. E você sente que está sendo lentamente guiado para outro caminho, como se o veludo se tornasse aço gelado, enquanto a moça Prudence, mostrando o rosto sob o hábito, retira delicadamente o cabo de madrepérola do decote e se oferecesse para estourar meus miolos. Eu sorrio. Moça insistente essa.
"Já disse." - Persisto.
Meus olhos passam rapidamente por uma construção de cimento mal pintada, luzes incandescentes amareladas, fuscas e fiats por todos os lados, e muitas pessoas velhos com suas botinas compridas e cinto de fivelão, moças mais velhas com vestidos de chita curtinhos, rapazotes de cabelo lambido e camisa social por dentro da calça, e mocinhas com vestidos rodados e euforia nos trejeitos. Há um homem grisalho lá, que encontra os olhos com os meus por alguns segundos. Estaria ele procurando Prudence?
Estariam eles mais tarde dançando naquele salão colorido, agarrados ouvindo Beatles? Se bem que aquele lugar tinha cara de estar tocando um sertanejo, ou um vanerão. Mas minha imaginação conflitante insistia em inserir Beatles naquele ambiente.
"Hold me tight!"
Algum tempo depois, lá estão eles, dançando uma baladinha. Ela sussurra algo ao seu ouvido.
"Oh Darling... Please Belive-me..."
Ele sorri. Aproxima mais o corpo contra o dela. Seus olhos castanhos fitam o negro profundo dos dela. Um mar negro, um céu noturno. Indefinível.
"I never let you down..."
Ela diz-lhe algo mais ao ouvido. Ele concorda. Aqueles olhos negros fitam-me por sobre os ombros dele, felinos, como que a confidenciar-me que já tinha escolhido personalidade e enredo pra si própria. Petulante...
Ela leva-o até o banheiro. Empurra-o contra a porta. Tranca. Beija-o com força, sobe-lhe as mãos pelas coxas. Ele embala-se no êxtase, se deixa levar pela provocação descendo-lhe o decote com os lábios a roçar o tecido fino. Ela sorri. Com duas estocadas certeiras corta-lhe uma veia do pescoço, afasta-o e apunhala-o no peito com precisão. Outras estocadas, garantem um serviço bem feito.
"When I get to the bottom I go back to the top of the slide
Where I stop and I turn and I go for a ride
Till I get to the bottom and I see you again."
Lá se vai ela pela janela do banheiro. Próximo ao matagal há um saco plástico, escondido com antecedência. Uma camisa e uma calça Jeans. Limpa o sangue com uma toalha, retoca a maquiagem. Troca-se sob a luz tênue que vem da lua. Tira a peruca loura com cuidado e liberta os cabelos negros compridos, da sufocante prisão. Ora, quem, é você pequena Prudence?
Ela não me responde, pois acredita não precisar mais de mim. Mais um maldito personagem, se apodera de uma história que podia ser boa. Vejo-a me olhar irônica, quando o carro passa a toda velocidade por ela, que pede carona mais a frente.
Ela fala algo, que ninguém ouve. Mas eu já sei o que é. O Próximo carro vai parar com certeza. E a bateria do meu celular acaba.
Frente à tela pálida do computador, escrevo as considerações finais do texto. Ela fita-me divertida, pernas dobradas sobre a mesinha, mordendo os lábio de leve, crente de ter conquistado o direito a uma nova história.
"Why Don't We Do It In The Road?"
Haviam muitas mãos, ou pareciam haver muitas mãos, e muitas bocas também.
A mulher fez-se universo em um segundo, enquanto seus braços macios de luar erguiam-se via lácteos a revirar o ar e a fazer ondas com ele. A garota dos sonhos do outro, que serpenteava entre suas idéias e vagava por sua cachola infinita, sorria-lhe nua a bailar dancinhas de seu passado, entre brumas que não molhavam. O queixo fininho, os dedos longos. A garota.
Fumou-se o cigarro esquecido na borda da mesa, enquanto ele, obcecado, percorria os próprios pensamentos, ávido por mais imagens recordatórias, nítidas ou não, desejoso como que de alimento, desejoso dela.
Ainda podia sentir de levinho o hálito próximo ao pescoço, fazendo pelinhos eriçarem, roubando um sorriso aberto de dentes amarelados. Ela estava ali, acariciando seus cabelos, branca como todas as olências do Cruz e Souza, os dedos longos passando lentamente em seu couro cabeludo.
Caneta em punho, num caderno velho pôs-se a escrever. Mantinha vivas há tempos, todas as lembranças que um dia a memória lhe levaria sem pestanejar ou mesmo avisar. Escreveu como um louco, olhos vidrados. Precisou de muitas, muitas palavras pra descrever cheiros e sabores, e mais muitas outras para descrever outras coisas indescritíveis.
E continuou lá, numa dança triste, a moça do sonho em sua brancura de estrela, encerrada em páginas escritas, presa pelo autor apaixonado que não a deixou mais partir para outras histórias,obcecado que estava.
Num dia fatídico, com o fogo, foi-se o homem, e com ele a paixão e a mão que escrevia.
A moça vestiu-se de nuvem, aguardando sorridente para viajar por outros caminhos, escorrendo graciosa da caneta d'algum poeta, ou dos dedos de uma contista de olhos penetrantes.
Mas foram-se também as folhas e os cadernos, e sua brancura melodiosa tornou-se cinza, desconhecida e fumegante.
Rita olhou-me com cara enigmática. Cara enigmática aqui lê-se "expressão neutra que pode tornar-se ofensiva ou depressiva, dependendo de um contexto desconhecido de alguma galaxia distante que até mesmo ela desconhece e tem alguma relação com a TPM".
___Jai Guru Deva! - Eu disse.
Rita suspirou impaciente. Eu sempre quis saber o que aquele raio significava. Ora que mandaram essa porra pro espaço eu poderia ao menos saber o que significa não? O Garoto sorriu um sorriso aberto, e passou a mão em minha cabeça.
___Repita isso todo dia. Vai ser bom.
E se foi.
Rita tinha uma expressão irônica no rosto, o que significava o meu calvário, para deleite dela.
___Vai virar Krishna?
___É uma música dos...
___Eu sei. Tu esqueceste o ohmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm!
Ela faz uma falsa pose de meditação transcedental enquanto mostra a longa língua rosada pra mim.
___Vamo comer ali?
___Pode ser. Tem bancos e Sprite.
Rita ajeita-se, mexe nos cabelos negros colocando-os para trás dos ombros. Senta-se e retira a carteira vermelha da bolsa de bolinhas. Ela não mais sorri.
___Qual é o problema?
Existem pássaros nas árvores próximas do barzinho e uma sensação estranha no ar, que começa com o fato de ela, Rita, ter aceitado comer num lugarchulé que ela nunca viu na vida. Meus temores estavam corretíssimos. Não planejava comer, a safada.
___E?
Ela mordeu o lábio, que tremia lentamente. Isso estava começando a me deixar preocupado. Tentei não demonstrar o desespero e enfiei novamente a unha na palma da mão para me controlar.
___Notou como a gente anda estranho?
O sol iluminou a garrafa verde que foi colocada displicentemente a frente dela. Acho que os olhos dela eram mais verdes.
Parei por um momento. Se os olhos dela estavam tão verdes, já sabia o que significava...
___Cara, tu andou cho...
___Acho que te perdi né?
Minha cara foi um misto de surpresa, alívio e vontade de comer batatinhas. Ah, que bobagem! Obviamente eu ri.
___Do que tais falando criatura?
___Da tua indiferença, da tua falta de carinho, frieza, quer que eu enumere mais coisas?
___Mas como assim?
___Já notou como andas longe de mim? Nem te aproximaste o fim de semana inteiro!
Não sabia se ria ou me preocupava.
___Deus, mulher! Tu tá na TPM! Se eu me aproximo, tu me xinga até a morte!
___É eu sei!
___Então não é melhor eu ficar longe?
___Não!
___Viu! e.. Ahn? Não?
___Claro que não! Eu tô carente!
___Mas dai tu me assassina! E me bate! E...
___É eu sei...
___E quer que eu insista mesmo assim?
___Claro!
Minha cabeça deu voltas. Depois reclamam da falta de mulheres filósofas. Hmpf.
___Promete não me bater ou outra crueldade?
___Claro que não.
___Ótimo.
___Que não prometo.
Eu já tinha recuperado o bom humor. Mordi-lhe o ombro e o tapa assassino escapou de acertar-me o nariz, mas não escapou-me o pescoço.
___Ouch!
___Idiota.
___Bem que podia começar a tocar qualquer coisa dos Beatles agora né.
___Vou pra casa.
___Mas...
Ela me deu um beijo rápido e ajeitou-se.
___Tchau.
E sorriu. Entrou no carro e acenou. Fiquei ali com cara de bobo, com a garrafa de Sprite a queimar-me os olhos no sol de finzinho de tarde.
Com o estrondo sinto o pneu, vítima de alguma armadilha infantil esvair-se em ar, sangrando e lamentando enquanto murcha indignado, e minha alma parece que se esvaziou com ele. Sinto-me indiferente ao tranco que a moto dá, e arrasto-lhe na direção contrária, frio, visando o meio fio. mas claro que há algo entre nós.Nós?
Quando ouço os últimos acordes de Imagine ecoando em meus ouvidos, agora concentrados no exterior, ouço o Lenon me sussurrar baixinho no ouvido que pode não existir um paraíso. Torço por isso. Antes de perder os sentidos, não vejo porra nenhuma de vida passando aos meus olhos, nem merda nenhuma de luz branca ou mantra ecoando cabeça abaixo. Mas juro que ouvi uma risadinha. Acho que era a minha.
Eu me sinto triste. Triste de uma forma nostálgica, saudosista. Como se num passado remoto, pudessem meus dedos alongarem-se em tamanhos infinitos a ponto de tocálas, permitindo que estas escoassem por entre eles, cascateando brilhantes até atingirem-me os braços nus, e lamberem meus olhos escuros com suas línguas de fogo.
Agora entretanto, poderia eu apenas olha-las de longe, enquanto ouço uma melodia, tocada insistentemente em um winamp longínquo de alguma tela acesa. A canção convida-me a cruzar estas estrelas, a viajar pelo infinito, bastando saltar daqui de cima. Claro que os mosquitos cruéis e zombadores, picariam-me com violência, como que envenenando-me a conciência para que esta não mais se perca entre os luzeiros distantes.
Não há diamantes lá em cima, zuniam eles. Nem mesmo a Lucy. Só estrelas.
Numa noite de verão fresca, com uma leve brisa a atravessar teimosos meus cabelos embaraçados, numa sacada qualquer de uma casa igualmente qualquer, que você provavelmente não vai conhecer, ou reconhecer.
A meia luz, forte o suficiente para distinguir traços negros no papel cheio de linhas finas, mas fraco o suficiente pra permitir que os pontinhos luminosos se destaquem imóveis no negro firmamento, permite-me vislumbrar naquele céu algo de sonho, algo de meu.
Posso ouvir baixinho sons distantes de motores, de pessoas conversando alegremente, de reclamações, de rádios, de televisões, como um chiado impaciente de um mundo fora de estação.
Entretanto estou só, sendo observado pelas estrelas caladas, que não riem nem xingam, nem discutem sobre política ou arte. Neutras. Imutáveis. imortais.
Essa imortalidade que procuram os homens desesperadamente, em suas orações, em seus teoremas, em seus projetos. Essa busca incessante pelo imutabilidade, pela eternidade, pelo prolongamento de suas vidas, seus sentimentos, suas carreiras, seus bens, seus amigos, suas histórias. E cá estou eu, diante do imortal, pensando na finalidade. No ponto final. Na vida, os fins são quase sempre insatisfatórios. Bruscos, imaturos, violentos, extremos, tristes, sem volta. Nos contos, procuramos os fechamentos perfeitos, os nós atados, o clímax no momento certo. Queria poder fazer uma história que não tivesse um fim com pessoas felizes para sempre, ou um daqueles que deixam o gosto amargo da insatisfação na boca, ou mesmo daqueles que te fazem ansiar por mais. O outro escritor não pode querer uma crônica límpida como um sorriso? Pois quero eu, um conto como uma estrela. Imóvel, brilhando em cantinhos obscuros de muitas mentes, despontando-se no céu desses pensamentos em algum momento aleatório, trazendo-lhe lágrimas, ou risos, ou pesar. E estes passasses longos momentos a admirá-lo, recitando-lhe pedacinhos e recordando com outros. Por isso escolho esta estrela que desceu na ponta da minha caneta pra que seja minha história, que depois de brilhar em céus desconhecidos por um longo tempo, possa então, cadente, declinar lenta e silenciosa na última lembrança que iluminou.
Balançava a perna devagarzinho, enquanto gotas grossas de chuva caiam pelo papel aqui e ali, marcando o ritmo de um tambor imaginário, ritmo perfeito para a entrada do violino que ouvia-se em seus tímpanos, envolvendo-se em seus ouvidos.
A caneta falha. Ele rica-a teimosa contra outra folha, e suspira.
Óculos escuros cobriam olhos turvos.
"Lágrimas se misturariam com a chuva." Pensou.
Enquanto a poeira levantava-se em nuvens estrebuchantes na estrada próxima, tentando em vão escapar de tornarem-se lama sem graça, as lentes escuras observam andarilhos anônimos na hora em que a cidade não descansa. Bocejou.
As folhas balançaram-se lentamente ao som dos violinos da mente dele, o vento sussurrava-lhe notas despreocupadas aos ouvidos.
Logo logo o sol estaria morto e a luz não será suficiente para escrever. Ele fecha o caderno, ergue-se e suspira. Gotas caem sobre o vidro negro e os olhos abaixo destas sorriem.
A porta do ônibus abre. Ela chegou.
