ferin

pó de vento

Acho que o vento me fazia balançar. Ele soprava e eu me balançava, como uma folha seca solta em uma árvore. Me sentia como se pudesse deslizar pelo chão, me enrolar pela areia e escorrer pela colina, desaguar pelo mar. Meus olhos olhavam outros olhos, vários, eles passavam rápidos, nem todos me olhavam de volta. Nem todos viam o meu balançar. Eu cantarolava alguma coisa assim, sussurrada enquanto meus pés tocavam o chão de pedra apenas com as pontinhas, tateando no escuro de olhos que preferem não olhar pra baixo, ou para cima, ou simplesmente não olhar. O vento soprou com força. Corri pela estrada, rápida, girei sobre meu corpo, saltei pedras, fui até o rio. Parei. Olhei pras águas paradas, pro fundo lodoso, pros galhinhos que boiavam desgovernados pela extensão úmida de um rio da minha vida. Molhei a ponta dos dedos. Toquei meu rosto, afogueado, transpirante. Fechei os olhos e respirei fundo. Respirei o ar gelado, limpo, o ar concentrado dos meus arrependimentos. Deixei ele se espalhar pelos meus pulmões, e voltar com força pelas minhas narinas,  dispersando-se no ar azulado de um início de dia. Me joguei na grama, olhei o céu que começava a clarear, os pássaros que me carregavam pra longe em suas asas preguiçosas, que podiam fazer a minha mente voar pelas nuvens, sem lugar pra parar, sem lugar pra chegar. Agora sem lugar nenhum. Virei de lado. Haviam insetos que se arrastavam pela grama, formigas, joaninhas... Sentei. Bocejei. Meus olhos molhados se tornaram outro rio, fininho, escorrendo pelas pedras duras, encontrando-se no mar das minhas bochechas. Solucei. Sorri. Deixei a cabeça pender até o peito e virei-a meio de lado, os cabelos sobre os olhos, colados numa testa franzida e cheia de receios. Me levantei. Corri de novo. Corri pela grama, corri pela areia, corri pelo asfalto. Corri pelo mar, corri pelo céu. Envolvi estrelas com meus dedos, espalhei um céu cheio de ressentimento em cima de núvens clarinhas que viraram um redemoinho de soluços, uma profusão de enjôos e náuseas. Girei no meu próprio eixo, rodopiei em círculos sem sentido, sem forma, sem padrão, deixei minha cabeça se enrolar num novelo, uma massa toda embolada de coisas, de sentidos, de nada. Com os dedos entre os ramos que saiam das minha orelhas, puxei raízes fundas, que sangrentas se desfizeram entre meus dedos. Olhei pro vento, de um rosado profundo que se fundia a um laranja luminoso, se estendendo pelo firmamento cheio de luz, voltando em fitas onduladas pelo meu corpo, sufocando, apertando e se rasgando em fios finos e descoloridos, que cairam aos meus pés. Respirei novamente, foi profundo, foi demorado. Ergui a cabeça pra ver um céu sem lua, uma noite escura cheia de medos. Juntei tudo aquilo, esticando meus braços longos, encobrindo todo aquele país que eu contruíra pra mim, e agora desabava fácil ao sabor de ondas calmas e brilhantes. Com água e areia, contrui entre meus olhos um castelo cheio de torres, tão bonito que deixei minha mente morar lá dentro. Então, sentei olhando o mar transparente, e deixei as ondas desabarem o meu corpo e arrastarem  em espuma pra dentro de outra pessoa. E lá fiquei.