ferin

22.00

Era um sol quentinho, de um dia frio. Haviam olhos muito brilhantes, muito escuros bem abertos, iluminados. Um sorriso se abriu. Mãos o tocaram, e esse rosto deslizou por aqueles dedos, os olhos fechados, a respiração aumentando devagarzinho. Haviam lábios escuros que se iluminaram da mesma luz que se esparramava pelos lábios do outro, que faziam reluzir seus dentes entreabertos. A luz escorria em calor pelos rostos que se afogueavam, pelas linguas que se entrelaçavam, pelas mãos que serpenteavam pelos corpos, que pressionavam, que afagavam, que se deixavam enrolar em dedos, que se apertavam. Haviam lábios sendo mordidos, haviam fiozinhos finos de sangue escorrendo pelas línguas, misturando-se a saliva. Haviam pensamentos que se esfumaçavam escorrendo dessas bocas, que subiam em vapor quente pelos ares. Os dois se olharam por um instante, e sorriram um para o outro, as mão de um no rosto do outro. Encostaram as testas e os dois rostos deslizaram, as bocas se procuraram, os beijos recomeçaram. Havia uma sensação magnética que vinha do estômago, que subia elétrica pela nuca, que se arrepiava com os dedos que se entremeavam nos fios macios de cabelo. Uma cabeça se ergueu deixando lábios lhe percorrerem o pescoço, morder o queixo, puxar com os dentes um canto do lábio, para sugar-lhe. Línguas se enrolavam. Bocas se pressionavam, com força, respirações falhavam, aceleravam. As mãos deciam encontrando áreas sensíveis, estimulando mamilos, bocas, paus. Entravam por dentro das roupas, tocavam pele quente, arranhavam, apertavam.

Olhos fechados se abriram, se miraram. Um pequeno silêncio, uma felicidade imensa. Não eram necessárias palavras, mas houve a conversa. Haviam os toques, mãos se entrelaçando em cabelos, em barbas, olhos que baixavam ao chão, ou olhavam nos olhos, conversas amenas, sérias, estranhas. Dai novos longos segundos de silêncio, e olhares que nem precisavam de tradução. Que atraiam lábios, dedos, odores, gostos. E tudo recomeçava, entremeado por frases sussurradas, baixinhas, mordidas ou sopradas de leve nos ouvidos alheios. E assim se passou tanto tempo, sem que o próprio tempo tivesse ideia do que se passava.