ferin

A criaturinha nojenta...

...insistia em pousar no nariz dele. Estava muuuuuito calor. A janela, aberta para refrescar, era inútil, a cortina permanecia imóvel como que caçoando da cara dele.
Mal levantou a mão, a mosca voou pra longe e retornou em zigue-zagues, desempenhando a função de toda mosca profissional: ruídos contínuos, irritantes, enervantes. Uma seleção músical de uma única música monótona. Não baixe pelo iTunes. Silvano concluiu que toda a existência da nojerinha voadora era irritar. Conhecia pessoas assim, odiava todas elas, mas aquela mosca conseguia ser mais irritantes que todos eles juntos. Levantou. Procurou algo pra poder esmigalhar aquela presença maligna. Pegou uma folha de papel. Com um golpe certeiro, fez a criatura se transformar numa massa escura que melecava alguns papéis da namorada.

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Heitor morreu, no finzinho da tarde. Não conhecia ele direito, mas tinha vários amigos. Acidente de carro, disseram. Ficou irreconhecível, o caixão ficou fechado durante todo o velório. Silvano saiu de lá e foi ao bar tomar uma cerveja e comer umas fritas com a namorada.

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Eram duas agora. Elas pousaram  na mesa, perto de uma xícara cheia de café frio de uns 3 dias atrás. A presença delas com sua patinhas se arrastando pela mesa já eram insuportáveis.
Silvano tentou matá-las, acertou uma delas de raspão que ficou se movendo pela mesa, arrastando a parte inferior do corpo pela madeira. A outra, voou pra longe, e ficou dando voltas, rasantes sobre a mesa. Com as mãos unidas, em pouco tempo matou a segunda com uma palmada na parede. Essa também ficou viva, e caiu sobre o vaso do cactus. Ele foi deitar na rede da varanda e cochilou.

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Britany, estava trabalhando no porto quando o container caiu sobre suas pernas. Sofreu durante horas, presa naquele amontoado de ferro, dopada pra não mnorrer só com a dor. Durante esse período, Joel caiu de cima do prédio da mãe, quando tentava alcançar alguma coisa que estava escondida no teto da varanda.


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Mais uma. Entrou pela porta quando a mãe trouxe o café, e, kamikaze, morreu se lançando nas águas ferventes e escuras daquela caneca (agora) limpa.

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Beatrice caiu dentro da máquina que fervia o leite. Era um tonel gigante, e o corpo dela ficou completamente queimado. Dizem que ela chegou a cozinhar.

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Pisou em cima.

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A casa desabou, o teto esmagou Berenice.

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Foram casos suficientes para que a dúvida surgisse na sua cabeça. Todas epssoas que conhecia, todas morreram aproximadamente na mesma hora do óbito das moscas. Todos, sem excessão, o irritavam de alguma forma. Pensou em falar com alguém sobre isso, mas com certeza iam dizer que ele enlouqueceu. Foi se tornando distraído paranóico. Faziam  dois meses que eventualmente matava uma mosca que, insana, entrava sorrateira no quarto e tinha o mesmo fim. Sabia meio que sem acreditar nisso, que ocasionava essas mortes. Ou dúvidava acreditando. Mas continuava seus assassinatos, tentando se convencer de que não havia nenhuma relação com tudo isso. "Como posso eu ser assassino, se eu nem tentei matar ninguém? Só me livrei de moscas irritantes, só mantive minha casa limpa, lonje dessas nojeiras".
Naquela tarde, era um dia gostoso de sol. A mosca pousou sobre sua mão. Ele ficou olhando-a, curioso. Se perguntando se era realmente uma vida que tinha em suas mãos, e no poder que possuía em por fim a ela, sendo mosca ou pessoa. A mosca voou até a face dele, fazendo uma cosquinha gostosa na bochecha, e tornou a pousar sobre seu dedo. Ele sorriu de um jeito meio sádico, e pegou-a entre os dedos.
"Seja quem for, você é bastante irritante. Seria interessante se não pudesse irritar mais ninguém."

{  }

No velório, os olhos profundos e roxos estavam imóveis, observando o caixão. As amigas da mãe choravam copiosamente, sem entender como uma morte tão horrível acontecera com ela. A irmã repetia a tragédia sem parar, aos prantos. De como a mulher figou presa entre as duas paredes que foram cedendo aos poucos, esmagando-a bem devagar. Deve ter sofrido durante muito tempo. Deve ter sofrido demais. Deve ter implorado pra que aquele sofrimento acabasse a qualquer custo, deve ter rezado e excomungado todas as coisas possíveis. E havia acontecido tão fácil. Um apertar de dedos e plim. Morta.

Silvano não queria falar com ninguém. Evitava contato com as pessoas. Evitava contato consigo mesmo, queria desligar o cérebro, ou arrancá-lo e jogar longe. Pensou em se matar, mas era preguiçoso demais pra isso.
Isolou-se. trancou-se no quarto e ficou vivendo do dinheiro que a mãe tinha guardado. Nunca saia de casa. Recebia ligações ou e-mails cada vez que uma nova besta alada surgia de alguma fresta inexistente e ele, babando de ódio, estraçalhava-a. Simplesmente não conseguia parar de matá-las.

Então elas pararam de aparecer. passaram-se dias, e nem sombra delas, nem um zunidinho suspeito. A princípio ficou feliz, mas não demorou pra vir o desespero. A cabeça a mil, imaginando n coisas terríveis, n consequência de não continuar o seu trabalho, sua função de pôr fim a vida daquelas aberrações. Passou a abrir a janela, ficava horas fitando a rua, e elas nem passavam perto. Deixou o lixo acumular pela casa, mas nem as baratas apareciam, nenhum inseto dava o ar da graça.

Tinha acabado de comprar o celular. Abriu o aplicativo, os rostos foram surgindo na tela, homens e mulheres de todos os tipos, categorizados pela proximidade. Com um movimento do dedo, ia  aprovando todos eles sem seleção. Não demorou muito para que o app lhe avisasse que alguém também tinha gostado dele. Era um homem, eduardo e morava ali perto.
Podia jurar que tinha ouvido uma mosca, voando ao longe, com seu ruído maravilhoso.