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Herança

Ela jogou a pequena caixa de metal contra o vidro fininho, e uma enxurrada de vidro brilhante voou pelos ares num barulho muito alto. O rímel tinha escorrido até as bochechas, o batom todo borrado na boca. Os olhos muito vermelhos, as lágrimas não paravam de escorrer.

___Filho da putaaaaaaaaaaaaa. MORREEEEEE.
Sem forças, deixou seu corpo cair sentado no chão. Havia vidro espalhado por todos os móveis vitorianos, tão lustrosos, cadeiras de encosto tão vermelho encarnado como sangue. Ou talvez elas estivessem cobertas de sangue. Talvez todas as tapeçarias, lençóis, encostos, chão... Talvez tudo tenha sido alvo e tranquilo, em algum lugar no tempo, que desconhecia.
Sabia que não podia permanecer sentada. Sabia que a criada iria aparecer em breve cobrando a caixa do avô. Viu ela pegar, com certeza. Não havia nada que aquela senhora não soubesse.
Abriu a porta devagar, e contradizendo qualquer conto de terror, não, ela não rangeu. Por estar descalça, andar sobre os tapetes abafou completamente o som de seus passos. Não haveria criatura humana que pudesse pereber sua presença. Mas claro, ela percebeu.
___Senhorita, não devia estar andando pela casa a noite. Muitos lugares são bastante escuros, não queremos que você, porventura escorregue em algum piso limpo e acabe se ferindo. Seu avô nunca me perdoaria.
A luz da vela lançava sombras estranhas sobre o rosto dela. Dona Carmen tinha aquelas feições duras de quem não sorri com frequência e o rosto se acomoda com aquele cenho franzido e aquela boca retesada, marcando rugas profundas nessa área. Odiava o fato de que falava do avô como se não tivesse morrido no acidente, como se estivesse em seu quarto, esperando. Como se as cinzas do maldito não estivessem naquela maldita caixa que tinha acabado de ser arremessada pela janela. E claro que ela sabia da caixa, porque, como eu disse, não havia nada que ela não soubesse. Talvez elanão soubesse ser simpática. É, isso ela não sabia.
___Eu estava meio cansada de ficar no quarto, estou com insônia. Resolvi dar uma explorada no casarão.
___Faça isso pela manhã, por favor. É muito cedo para verificar sua propriedade, garanto que de dia é mais fácil avaliá-la. Acredite senhorita, eu me preocupo com a integridade de sua pessoa.
A expressão no rosto dela era de um desdén irônico, que deixou a garota furiosa, mas se conteve.
___Entretanto, vamos até a sala para que eu possa limpar esse corte que o vidro fez no seu rosto. Não queremos que infeccione.
Foi instantâneo levar a mão ao rosto e perceber que havia algo grudendo nele. Levou os dedos ao nariz e o cheiro férreo era bem claro.
___Ah, ok.
Uma coisa não poderia se reclamar dela. Era cuidadosa. Limpou o ferimento com cuidado, aplicou um pouco de iodo com uma bolinha de algodão, colocou um pedaço de gaze que cortou num retângulo milimétrico, e prendeu com esparadrapo hipoalérgico.
___Pronto querida Emi. Está bem melhor.
___Você é muito boa nisso.
___Sou enfermeira, você sabia? Cuido do seu avô. Ou cuidava...
Emily tinha muito, muito medo de fantasmas, e a mulher agindo daquele jeito só conseguia mantê-la apavorada. O avô, tinha sido uma pessoa terrível, batia em sua mãe, batia nela, era violento ao extremo. Experimentava todo tipo de objeto para surrá-las, correias de máquinas, vassouras, panos molhados. Quebrou uma cadeira nas costas de minha mãe uma vez. No sonho que a fez ter insônia, ele vinha até ela dizendo que em breve, com ela aconteceria exatamente o mesmo que com a mãe. A mãe que desapareceu abandonando a garota com os tios, e nunca deu notícia. Num ímpeto maluco, pegou a caixa que tinha as cinzas do avô e jogou pela janela. O vento deve ter carregado. O vento tem que ter carregado. Velho nojento.
___Senhorita Emi, perdão nem perguntei se poderia chamá-la assim. Seu avô sempre mencionava seu nome dessa forma.
___Pode sim. Nem sabia que meu avô falava de mim.
___Com frequência. Dizia sentir sua falta.
___Disso eu duvido. Meu avô era a pior pessoa que eu conheci.
___Sim ele era. Algumas coisas não mudam ein.
Nesse momento, por alguns segundos Emily se compadeceu de Carmem. A expressão momentânea de angustia em seu rosto demonstrava que meu avô tinha dado trabalho. E ela imaginava o quanto.
Naquela sala, a luz da lareira iluminava o ambiente de forma aconchegante, meio que protetora. A luz tinha acabado logo cedo, e demoraria talvez dias pra virem consertar. Não tinha nenhuma esperança que retornasse antes de ir embora. Era mehor vender aquele lugar logo.
Foi quando um vento forte entrou pela janela entreaberta, as cortinas voaram pelos ares, era um vendaval inacreditável. Tão forte a ponto de apagar completamente todas as velas e até mesmo a lareira. A casa ficou num completo breu, exceto na região próxima a janela, daonde uma luz fraquinha, emitida pela lua beijava o assoalho de madeira lustroso.
A senhora aperta a mão de Emily com força. Os olhos das duas vão se acostumando ao escuro e os contornos dos móveis vão surgindo aos poucos. Um vulto parece ter entrado pela janela lentamente, se esgueirando pelo canto da parede. Era completamente negro, e andava agachado como um animal. Dava de ouvir um grunhido baixo vindo dele, ele vinha cautelosamente, como um animal caçador que examina sua presa.
___Ele veio então - disse Carmen - sabia que viria.
Num empurrão, a velha jogou Emily sobre o tapete e ficou olhando-a com uma expressão ríspida.
___Sinto muito menina. Ele disse que viria te buscar. Não tem nada que eu possa fazer.
___Ele quem?
___ Achei que isso estivesse claro.
O vulto vai se aproximando com cautela. Emily vai se esgueirando  de costas, tentando alcançar o sofá. A velha se afasta aos poucos, rígida, observando a cena,
___Não, não deixe ele me pegar.
___Senhorita, sua vinda até esse lugar tinha esse objetivo, desde o início. Assim tem sido a gerações, e assim será hoje.
Foi quando a criatura saltou. Emily não conseguiu reagir, sentiu suas garras negras cortar seus braços como manteiga, como um bituri muito afiado. Viu os olhos brilhantes de seu avô naquele rosto desfigurando, olhando bem denro de seus olhos, talvez de sua alma. Sentiu o cheiro de sangue naquele hálito. Então desmaiou.

Acordou com a luz do sol banhando sua face. Sentia todo o corpo dolorido, a cabeça pesava e doia. Não podia acreditar que estava viva. Olhou para os ferimentos no braço, cobertos de gaze e muito bem atados. Viu que tinha ataduras por todo o corpo. Viu que estava nua e cheia de ataduras, uma múmia numa piada sem graça. A empregada estava sentada ao sofá olhando pra ela, com ternura.
___Bom dia.
Tentou levantar, ainda meio debilitada. Foi quando sentiu o sangue nas mãos ao se apoiar no chão.
Virou pra trás e lá estava a mãe, exatamente como lembrava dela, deitada no chão, a barriga aberta, completamente estripada. Havia um ar de desprezo naquele rosto, de arrogância. Da cabeça, uma poça de sangue grudento. As mãos retesadas. O corpo muito pálido.
Carmem nada disse, como se isso não fosse necessário. E não era.
Foi até a cozinha e trouxe uma bandeja com café bem quentinho, pão de casa e geleia. Ficou observando a menina comer, enquanto penteava seu cabelo. bem. devagar.

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