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Escuro

O céu não tinha estrelas, mas era clarinho. Claro de olhos que começavam a se acostumar com o breu, e a ver os contornos ao redor. Havia uma lua, e ela era o suficiente pra deixar os olhos pesados, ardendo. A luz da lua refletia lágrimas que escorriam devagarzinho e caiam sobre a areia branquinha e gelada. Ele pegou um punhado desses grãos fininhos e jogou pro ar, pra ver eles flutuarem. QUeria que seus sentimentos pudessem flutuar pra longe junto com aquela areia ao vento.
Não aguentou mais conter o choro, os soluços começaram a surgir, fraquinhos até se tornarem cada vez mais fortes, os olhos iam se avermehando, brilhantes com a luz daquela bola enorme, presente ali pra assistir a sua tristeza.
Tentou levantar, mas viu que não podia. Viu que os pés tinham se tornado areia, que ele se desfazia devagarzinho naquele infinito brilhante. Viu que o vento levava seu corpo pra longe, exatamente como queria que fizesse. Então resolveu deitar.
Milhares de lembranças Voaram pela sua cabeça, rápidas, o som da voz dele, o gosto da boca, o barulho do riso tão baixinho, tão bonito. Ao ponto que seu peito ia se desfazendo , viu que o coração não batia mais dolorido, e que os braços não podiam mais se machucar. Se beliscar. Se esbofetear.
A cabeça foi ficando levinha, os cabelos pareciam se esticar e se desmanchar. Os olhos ficaram secos, sentia o gosto terroso na língua, se espalhando. Dai parou de ventar. Se sentiu leve, misturado com todo aquele pó solitário. Então da própria areia, saiu nu, dolorido, rejeitado pela terra e pelo vento. Ergueu-se, foi até o mar que batia nas margens, foi indo cada vez mais pro fundo. A lua se refletia em seus cabelos e em seus sentimentos. Ela queimava, fazia doer tão forte. Queria morrer.
Já era fundo o suficiente pra se deixar levar pela correntesa. Não se arrependia, só queria que aqueles redemoinhos de água brilhantes o encobrissem e o levassem pro fundo. E depois pra longe.

Quando acordou no dia seguinte, com a garganta salgada da água que engoliu, sentiu a cabeça pesar. Olhou o horizonte, o céu ficando laranja e roxo, rompendo em cores tão bonitas. Virou para o lado e voltou a dormir. Sonhou que era feliz, e desse sonho não acordou mais.
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