December 1st, 2015

ieuz

Escorre pelos dedos

Era um dia bonito de sol, chovia fraquinho deixando gotinhas brilhantes no cabelo muito desgrenhado dele. A praia era tão bonita naquela hora. Ele coçou o nariz, e deu um espirro. Riu. Deixou as pernas escorrerem pela areia e tocar as ondinhas com as pontas dos dedos. Elas vinham se deixar escorrer entre os dedos dele e iam embora felizes, fazendo um barulhinho surdo.
Ele olhava fixo pras ondas lá pra longe, e acompanhava o movimento delas até a margem, até seus pés. Elas vinham correndo dar um beijo de oi, e fugir envergonhadas, tímidas.
Começou a apertar a areia ao seu redor e deixar ela escorrer entre os dedos, bem clarinhas. Elas voavam com o vento e se dispersavam. Sumiam.
Pensou em todas as coisas que escorreram por esses mesmos dedos, arrastadas pelo mar das insconstâncias, indo embora fazendo um barulhão de onda brava, de temporal. De como esses grãozinhos se perdiam pra sempre num mar escuro, e de como um aperto no estômago fazia ele lembrar de todas essas coisas que a correnteza levou.
Mas ali no lado dele tinha mais areia. Mais areia pra deixar cair levinha pelos dedos, se diluir na água e ir embora com o chiado alegre das ondas. E daí percebeu que as ondas da margem, vinham escuras trazer mais areia para se grudarem nos pés descalços. Ficavam ali, geladinhas no valinho entre os dedos. Essa areia iriam secar ao sol enquanto ele caminhava de volta até a calçada, bem presas, insistentes, querendo de qualquer jeito permanecer em sua pele pelo máximo de tempo que pudessem.
Ele já estava na calçada, e ia colocar os chinelos. Bateu os pés com força. Insistente. Não queria levar esse pedaço triste da praia com ele. A areia foi embora com a mangueira, mas o sal ainda estava ali, queimando invísivel num sol quente, com uma chuvinha que não ia se tornar um temporal.  
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