December 14th, 2015

ieuz

longe

Na sacada do prédio tinha uma fresta. Ele gostava de deitar entre as plantas e ficar olhando pelo buraquinho pras pessoas que passavam. Acabava convivendo com elas sem que elas soubessem. Era irmão, sobrinho, era amigo, namorado. Tinha um parentesco invisível com aqueles desconhecidos. Falava com eles, perguntava sobre suas vidas. Ouvia novidades sobre parentes de outro país, romances de escola, mortes de avós.
Dai ele apareceu. O outro.
O moço observador até se remexeu no lugar pra ver melhor. O outro andava muito rápido, sem olhar pros lados, um ar de bravo. Parecia irritado, não sabia explicar o porque. Olhava as coisas de baixo pra cima com um olhar tão afiado, que as vezes parecia que cortava fundo nos olhos como uma navalha, que se estendia pelo cérebro e se transformava em choquezinhos que corriam pela espinha dele dando arrepios. Ficou viciado nos olhos do garoto, e passou a observá-lo todos os dias. Parou de assistir desenhos, adiou o nescau da tarde, tudo pra não perder um segundo. Treinou encarar o garoto do mesmo jeito, fazia aquele olhar no espelho. AS vezes conversava com ele como se estivessem próximos. Ensaiava algumas piadas que sabia que não tinham a menor graça, pedia desculpa pra ele, e devolvia o olhar afiado de deboche.
Dai de longe, colocava as mão em frente aos olhos, como se afagasse aqueles cabelos macios, e passava a mão no rosto dele deixando os dedos se perderem na barba, passearem pelo contorno da face, esfregarem de leve os lábio, ocupados em morder devagarzinho suas unhas. E suspirava o outro e ele suspirava também, saindo prolongado, espalhando um calor bom pelo corpo. Ele se encolhia todo no chão e deixava o corpo formigar, os pensamentos voarem sem rumo por lugar nenhum em cores que se emendavam em tons claros e brilhante se desciam se avermelhando pela bochecha dele. E ria, ria sempre.
Era um dia meio chuvoso. Um dos que o outro  não tinha aparecido ainda. Estava descalço, e ficava entrelaçando os dedos do pé um nos outros, o olhar distante sem se perder em nenhum parente desconhecido. Aí pelo canto do olho viu o brilho daqueles olhos, e se virou rápido. Veio o olhar, bem em sua direção como sempre, veio o calafrio, veio o calor. Mas ele dessa vez não atravessou a rua. Parou. Continuou mantendo firme aquele olhar que parecia que era feito pra ele.  Aos poucos, a boca  do outro se abriu num sorriso, ele mordeu de levinho a unha, naquele tique pelo qual já tinha se apaixonado. O sorriso aumentou e se iluminou, e virou uma risada baixa que era tão mais bonita, tão mais incrível. Se aproximou do terraço.
___Vem cá – o outro disse.
Era um dia de chuva. A água escorria pelo rosto de um, e atravessava o estômago em borbulhas do outro.
O portão bateu e uma conversa abafada pela chuva se prolongou. E prolongou.
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