ferin

Último

Quando percebeu, estava no fim. Acabou-se a festa, assim como a música, e mesmo a bebida. Não haviam pessoas ou barulhos. Podia ver alguma coisa, pela luz que entrava fria pela fresta da janela, cobrindo de leve uma mesa cheia de copos. Fria também estava a casa, mesmo fechada. Andou cambaleando pela sala, aparentemente tinha desmaiado em algum cômodo, bebasso, e acordava sem entender nada. Foi até a porta, que estava trancada.
Procurou uma chave. Nada. Foi até a cozinha, sentia um pouco de enjôo. Abriu a torneira e nenhuma água saiu. "Que casa  mais inútil" pensou. Abriu a geladeira, a lâmpada não acendeu. Podia ver na penumbra, agora com os olhos acostumados, que estava vazia. Nem mesmo as grandes estavam ali. Sentiu sono novamente, mas sabia que não deveria voltar a dormir, que era perigoso. Se arrastou até o quarto. Tinha uma cama de casal, lençóis arrumadinhos, limpos. Foi até uma pilha de roupas, camisas, todas iguais, de um tom cinzento sem graça. Foi quando notou que tudo ao seu redor era meio cinzento, não por causa da luz fraca, mas porque não haviam cores. Olhou pras próprias mãos, pálidas, de um tom de cinza clarinho, as unhas ainda mais claras.
Correu até o banheiro, abriu a porta. Hávia lá um espelho, olhou-se nele. Mas não havia nada ali, era um espelho que não refletia. Abriu o espelho, haviam remédios lá. Potes vazios.
Ele viu que a janela do banheiro estava aberta, e outra fresta de luz iluminava melhor o aposento. Subiu e forçou a janela, ela abriu bem, o suficiente pra enfiar a cabeça. Foi quando viu que não havia nada lá. Como assim nada?
Nada de nada mesmo, a casa estava no meio de um fundo infinito branco, não sabia se flutuava, se tinha um chão ali. Correu sem saber pra onde ir. Quartos cheios de coisas cinza, quadros sem nada dentro das molduras. Percebeu, quando chutou uma cadeira por engano que não havia som. Começou a chorar, apertou o rosto entre as mãos, a respiração veloz como os pensamentos, que cogitavam milhares de coisas.
Então a porta abriu. Ela era branca, tinha neve nos cabelos e estava coberta de flores branquinhas que reluziam. Ela se aproximou do moço, e tomou o rosto dele entre as mãos. Seus olhos eram claros de um azul muito transparente, a boca, pequena era levemente azulada.
___Só faltava você mesmo.
Enrolou ele numa bolinha de papel. Foi até a entrada da casa, e mirou no lixo, enquanto saia pela porta com os cabelos esvoaçando por um ar onde não tinha vento.
___Ai. Eu nunca acerto.

ferin

=3

Ele tinha acabado de descer do ônibus. Me viu. Sorriu. Pediu mil desculpas por ter chegado naquela hora (que bobagem).Eu queria já sair dando um abraço, mas nem. Ele me deu oi, estava tímido. Eu também. Dois bobos.
___Oi.
___Oi.
Não falamos muito, a princípio. Dai me levou pra visitar a cidade. Simplesmente saiu andando, me levando. Perguntou se eu tinha fome, se eu precisava de alguma coisa. Eu não consegui falar, só ouvia. Ele me mostrou muitos lugares legais, lugares que não existiam, lugares-fantasma, que estavam impressas nas memórias dele.
Não conseguia me olhar, olhava pros lados de timidez. Em alguns momentos eu não conseguia parar de olhar pro rosto dele. Pros olhos. Enfim.
Ele ficava ainda mais tímido, mas continuava falando dos lugares que gostavam, e que tinham virado outros lugares. Ou abandonados. E mostrou os puteiros. Meu deus como tinha puteiro abandonado naquela cidade. Andamos por muitos lugares, eu não conseguia parar de sorrir, por estar assim, tão fácil, conhecendo aquele mundo dele, tão pessoal. Ele dizia não gostar da cidade, mas conhecia detalhes tão bonitos dela, coisas que passaria desapercebidas, várias. Esporadicamente eu falava alguma coisa, tentava ser legal, mas não sei se estava sendo, na verdade.
Me senti um pouco cansado. Pedi pra sentar em algum lugar. Ele me mostrou praças, me contou histórias. Riu pra mim por não conseguir parar de falar, um riso envergonhado, tão bonito, que tive que ficar olhando. Acho que sorri de volta.
Sentamos numa pracinha, tinha uma boate abandonada lá (muitas coisas abandonadas, numa cidade que fervia numa época do ano específica). Haviam poucas pessoas ao redor. Em um momento, não sei qual, ele falou algo engraçado, e tocou na minha perna. De vez em quando me tocava sem motivo, e era tão tímido, tão breve. Eu fiz o mesmo, a timidez era recíproca. Até que não aguentei. peguei a mão dele. Ele deixou eu entrelaçar os meus dedos nos dele. Ficou esparramando os dedos pelo meu braço em movimentos bem leves. Nesse ponto eu já não conseguia parar de olhar. Não conseguia disfarçar. Ele parou e me olhou de volta. Por alguns segundos de silêncio, que pareciam imensos ele me olhou, e aproximou a cabeça, bem de leve. Eu beijei ele. As coisas pareciam que voltavam a fluir, o tempo correu tão rápido quanto nossas bocas se entrelaçando num calorzinho bom que descia pelas costas, pela espinha. Ficamos com as cabeças encostadas, em silêncio, de olhos fechados. Falamos coisas tolas, carinhosas. Ele passou a mão no meu rosto, e nos beijamos de novo. E a sensação continuava boa, até melhor. Não conseguia parar, queria ficar naquele beijo por horas, mordendo aquela boca, cheirando aquele pescoço perfumado, que tinha o cheiro dele, eu consigo lembrar daquele cheiro ainda, escrevendo essa palavras. Andamos ainda, abraçados. Conversamos muito, vimos mais muitos lugares, paramos. Ficamos. O tempo voou.
Aí acabou. Entrei no ônibus com a cabeça naquilo tudo, em como tinha acontecido de um jeito tão natural como acabou. Senti uma vibração leve no bolso, e uma mensagem dele aparecia na tela. Nem lembro o que era, mas foi o suficiente pra um sorriso prologado, grande, que durou até agora, mais ou menos.
  • Current Music: Lana Del Rey - Old Money
ferin

céu e estrelas

Há uma constelação. Ela é imensa, infinita. Pontilhada de estrelas, planetas orbitam nela grandes, orgulhosos. Eles deslizam pela noite escura que percorre minhas veias. Há uma galáxia tranquila ali.

Faz alguns dias que o sol se expandiu. Ele começou a ferver soltando gazes que, incandescentes teimaram em percorrer a minha espinha, em perturbar todo aquele espaço dentro da minha cabeça. Planetas arderam, meteoritos voaram pelos meus dedos e queimaram meu rosto com um vermelho doente. Luas explodiram, incharam, cobriram aquele céu do meu peito com pontos que faiscavam, brasas de cigarro sob a minha pele. Arfando numa noite gelada, a chuva caindo devagar sobre meus cabelos, escorrendo pelo nariz, evaporando-se numa tempestade febril. Meus olhos baixaram para o solo. Meus lábios se contrairam. Algo tocava baixinho, vindo de algum lugar, minhas orelhas queimavam, ferviam. Pus as mãos no rosto e senti a garganta fechar, sufocando com a fumaça e a fuligem, o magma incandescente que irrompia do meu estômago, que se alastrava impiedoso. Sentia meu corpo falhar, sentia meus olhos arderem. havia um fim começando dentro de mim. Um fim de um começo, um começo de tentar acabar. Olhei pro céu, as gotas visíveis com a luz do poste vinham geladas pra cima de mim, e eu nem sentia. Havia algo morto que agora vivia pra poder morrer novamente. Havia algo bom que queimava doloroso, que ansiava, que me fazia querer muitas coisas, que me fazia desejar. Me fazia desejar com força. Me fazia ansiar numa agonia imensa, órgãos-planetas se remexendo no meu ventre, implodindo em milhares de luzes, em milhares de pedaços de algo que nem eu sabia definir.
Parei com as mãos na cabeça, dedos apertados entre os cabelos, cabelos que pareciam grudarem-se na minha testa tentando se salvar da enxurrada que descia meu rosto, arrastando tantas coisas pra longe. Fazendo emergirem tantas outras.

Meus olhos estavam secos. Sempre estiveram. podia doer o que fosse, mas não sabia mais como era chorar. As bolas de luz que surgiam dos planetas que se precipitavam pelo espaço dentro de mim, nunca conseguiriam escorrer pelos meus olhos e cobrir o céu do meu rosto de estrelas.
Não chorei. Acendi um cigarro, que foi molhando com a chuva fininha, apagando o ponto vermelho aos pouquinhos, deixando-se morrer entre meus dedos, morrer devagarzinho, suspirando halitos vaporosos. Me ergui. Apertei a mão na chave, subi o degrau, destranquei a porta. Suspirei ainda antes de entrar no quarto e encontrar minha cama, que já me chamava pra dormir, que já me chamava pra descansar. Deitei e sonhei. Sonhei que chorava.
Quando acordei, nem era minha casa, e tinham pessoas estranhas ao meu redor. Eu era um estranho, não conhecia essa pessoa que vivia embaixo da minha pele. Me revirei na cama, fechei os olhos, que agora pesavam. Dormi. E dessa vez, não sonhei.
ferin

|| três pessoas || Arco

Não sei se tem como definir ele. Há um grande espaço vazio, imenso, um fundo infinito branco que se perde na imensidão. E tem ele ali no meio. Não há reflexo, não há sombra, só ele. E ele é tão real no meio desse espaço surreal e vazio, fica ali conversando por horas com vultos que passam, com vultos que param, com vultos que continuam. Muitos param em frente a ele, pessoas disformes, sentimentos disformes. Opiniões variadas. Pessoas provisórias, alguns sentimentos provisórios mas reais. Sentir, pra ele, é intenso e repentino. Se desespera com um amor que pode acabar em horas, o equivalente a uma vida amando descontroladamente, passa de uma confiança ferrenha para uma insegurança constante. Chora sozinho. Emociona-se. Passa rapidamente do feliz ao triste, alterna ondas de paixão pelo que faz. Fala baixo, é ponderado, safado de um jeito sutil, sutil de um jeito safado. Irônico. Ferino. Doce. Inocente. Uma pessoa que acumula tantas características juntas, verdadeiras, uma atropelando a outra, se empurrando pra ganhar o destaque, tinha que estar ali, no meio de um palco feito de narizes e orelhas. Tem olhos sábios. Firmeza na voz. Extremamente convincente, extremamente metódico, extremamente preguiçoso, extremamente volúvel. Vive uma vida de extremos que se alternam rapidamente. As vezes ele queria que os vultos parassem na sua vida, que o desfocado da câmera fosse se tornando suave, até poder ver o contorno de seu rosto. Poder segurá-lo entre as mãos, abraçar. Apaga-se a luz, o infinito fica infinitamente escuro, de um jeito tranquilo, para que ele possa descansar, apesar da mente continuar fervilhando, mesmo no escuro. Mesmo que as aflições continuem lá sussurrando no ouvido dele. Ele simplesmente pode decidir ignorar isso tudo e se divertir, e querer ser feliz. E é.
ferin

|| três pessoas || piano

Assim de fone. Bem assim. Saiu de casa assim, saia de casa assim. Andava pelas ruas meio aéreo, prestando atenção nos sons que se enfiavam ouvido adentro, dando voltinhas pela cachola e saiam pela boca num suspiro longo. Quando parava na rua esperando o sinal abrir deixava a mente ir embora pra longe, em pessoas e lugares. Tinha muitas vontades, todas listadas num grande plano. ponderava cada uma delas, pesava e guardava num cantinho do peito, onde esperava retirá-las em breve. Olhava o celular constantemente, a tela de mensagens piscando com sorrisos de amigos e propostas, e possibilidades e tanta coisa. Quando encontrava alguém, sorria tímido, as vezes fazia uma careta franzindo muito a testa (fazia isso sozinho também).
Era feliz, de um jeito quietinho e reservado, e no geral não se importava com coisas que não lhe interessavam. E havia nele algo triste, não uma tristeza amarga, ou intensa, uma tristesa leve, que doia devagarzinho de um jeito preguiçoso, que cobria letargicamente o seu corpo, gás espesso que se espalhava pelos membros, que deixava tudo denso e devagar. Sofria como uma música, como um bolero arrastado, que se espalhava pelos pêlos trazendo arrepios, escorrendo pelas notas de todas as músicas que ouvia, que se espalhavam ao seu redor, densos. As vezes a dor doia. E quando doia, a névoa virava uma nuvem escura de tempestade, e bem em cima do peito, chovia gelado, a ponto de doer. Uma dorzinha chata que insistia em aumentar, em seu espalhar até o pescoço e puxar os olhos para baixo. Dai ele chorava baixinho, com as lembranças que orbitavam pela cabeça se enfiando no meio dos olhos, enfiando imagens lá dentro. As imagens de coisas tristes que um dia já foram felizes. As vezes se arrependia do que fez, do que não fez, do que faria, enfim. Chorava mais do que devia, sempre sozinho, sempre ouvindo música.
ferin

|| três pessoas || sorriso

Ele tinha um sorriso bonito. Era largo, grande, iluminado. Quando sorria, as pessoas sorriam de volta, como que se fossem contagiadas por um vírus, algo que entrasse pelos olhos e com mãozinhas pequenas lhes puxassem o cantinho da boca pra cima, de um jeito natural e até bom.
Ele falava pouco com quem não conhecia, mas era extremamente querido com quem amava. De dar abraços longos e cafunés. Quando ria, a voz baixa ficava possante, alta, se esparramava pelo local, ecoando levinha pelas paredes. Mesmo quando sorria tímido, as pessoas paravam pra olhar.
Observando com cuidado, poderia-se notar que havia algo estranho no cantinho do olho dele. Algo azul, algo assimétrico. Algo que parecia não estar ali. Mas aquela pontinha era um pedaco de algo grande, de uma fita fria que enrolava-se pelos olhos, adentrava a cabeça, e entre os sonhos e as lembranças, ficava ali, desaguando numa praia cinza, um lugar sozinho e bravio. Era um mar revolto de conflitos, era uma profusão de sentimentos escuros que se chocavam entre si, com estrondos, com aflição. Era um lugar de sentir tnao intenso que doia. E doia intensamente, ali escondidinho no meio de áreas amarelas e laranjas que se enchiam de sol, que se espalhavam pelos dentes, que lambiam com agua clarinha aquele rosto barbudo. Sozinho, no escuro, num quarto a quem ele, o moço dos olhos tristes pertencia. Destas pontinhas saiam núvens, que cobriam-lhe os olhos e faziam a boca retesar, os dedos se enrolarem nos próprios dedos, as lágrimas, restos das águas que explondiam nas ondas dos seus sentimentos, transbordando pelos olhos, caindo dolorosas pela face que se distorcia de dor. Ali, sozinho, amava e sofria, e tudo parecia igual, e tudo parecia infinitamente difícil, rasgando-lhe a carne, virando suor gelado. estendido na cama, ele olhava o teto cinzento, que lhe olhava de volta, sem sorrisos. Ele espremia o rosto, enfiando a mão pelos cabelos, forçando a cabeça contra o estrado da cama. Dai dizia pra si mesmo que não podia ser assim. E tentava não pensar. Tentava não sentir, porque sentia tanto que doía, e a dor que as vezes era boa, nem sempre fazia bem. Dai ria. Ria de algo bobo, e era o suficiente pras faces irrigarem-se de sangue, clarearem, de iluminar o quarto escuro com um sorriso tão grande. Apenas um sorriso. E tudo se foi.
ferin

pq

Eu olhei pro vento. Ele passou sussurrando alguma coisa no meu ouvido. Sussurrando um som, uma voz. Não sei. Era conhecido, uma sucessão de coisas familiares que entraram ventando pelo meu ouvido, se enrolaram pelo meu cérebro dando voltas cortantes, fazendo ele se contrair de dor. As lágrimas não puderam ser seguradas, cairam rápidas pelo rosto que gelava, varrido pelo vento, que não dava conta de secar todas elas. Não consegui entender porque algumas coisas vão e voltam, porque lembranças gostam de te atormentar nessas horas mais desprevinidas. Sentia meus olhos se tornando opacos, secos, cobertos de vento frio soprando minhas pálpebras com violência. Deixei-me cair sobre um mato alto, deixei minha cabeça pender, deixei meu corpo se comportar como quisesse. O sol era fraco, banhava meu rosto sem cor ou mesmo temperatura, tão impotente, tão sem sentido. Tinha uma música tocando bem longe, agora sabia qual era. O vento trazia, de longe, fraquinha mas poderosa, baixinha mas pontuda, perfurante, enfiando-se as pontadas na cabeça que já latejava, mas não mexia. Podia lembrar de rostos, de diálogos, de situações coloridas, tão desconectadas de todo aquele cinza, de todo aquele frio. Fechei os olhos. Apertei a grama sob minhas mãos com força, senti os pedacinhos de folha enfiando-se embaixo das minhas unhas, o cheiro da terra arrancada da raiz, o barulho baixinho de estalar. Senti meu corpo tremer, minha respiração falhar, minha garganta fechar. Tudo era pânico, tudo era imensamente doloroso.
Respirei. O vento nos pulmões gelava minha alma, congelava meus sentidos. As lágrimas não paravam. Queria gritar, mas não podia, não devia, sei lá. Sentei. Esfreguei a cara, tirei as folhas dos cabelos. Eles caiam úmidos na minha testa, colados, gelados. Afastei eles pra trás e vi que estava sozinho. Que todo o som tinha ido embora, acabado. Que o vento tinha acabado, que o dia tinha acabado. Que as coisas e as pessoas acabam, e esse era o fim de tudo.
Deitei de novo e tornei a pensar em tudo aquilo e sorri da minha dor. Ela era só minha, vinha com o vento pra me atormentar, a me ensinar, a me querer. A me lembrar que nós dois precisávamos um do outro, as vezes. E isso sempre ajuda.
  • Current Music: While My Guitar Gently Weeps
ferin

Bloqueado

Minimizou ou facebook por instantes efêmeros. Era o tempo de arranjar algo pra comer. Googleou "delivery" e "entrega" e teve milhares de resultados de milhares de coisas. Resolveu enfiar mais algumas palavras como "lanche" e "morto de fome" (essa última levou ele pra uma página funerária). Tentou "pizza", "xsalada", "calabresinha", "mistoquente". Sempre recebia uma enchurrada de resultados de lugares que ou estavam fechados, ou não entregavam (oi?) ou eram longínquos, tipo outros estados, países, ou mesmo umas vilas rurais fantasmagóricas. O estômago já tentava se auto-digerir, Espeliandro contava os minutos para que um buraco surgisse em seu abdômem e fosse aumentando até ele sumir com um barulhinho tipo um peido, mas molhado. Um peido molhado.
Irritou-se. Correu até a cozinha e checou os armários, nem miojo tinha. Na geladeira, um dente de alho e uma coca-cola velha, sem gás, sem rótulo, sem cor. Convenceu-se que era uma sprite, nas mesmas condições, ou era água, ambas opções horríveis. pensou em comer gelo, mas desistiu. Pensou em sair de casa, mas jogou a calça longe quando o frio dela entrou em contato com a sua pele. Deitou na cama e ficou encolhido, ouvindo o estômago roncar desesperado. Morreria de inanição, seria encontrado todo seco sobre o sofá, a expressão de desespero de quem morreu implorando pela intervenção divina com o surgimento de um fandangos, ou mesmo de um hot pocket horroroso. Foi quando ele entrou pela porta, o namorado. Tinha um pacote do Mac Donads em uma mão, outro do Subway e mais um do Bobs. Era dia da mistureba. Hélio retirou cuidadosamente o saquinho com as batatas e a coca, o sanduíche de filé e o milkshake de ovomaltine e depositou sobre a mesa. A ansiedade do outro era crescente, imensa, torturante. Por alguns instantes tão efêmeros quanto o tempo que o face ficou minimizado (ele olhava a rede social naquele exato momento, no celular), pensou que planejava dizer ao namoradinho de relação aberta que tinha decidido terminar porque sei lá (nem lembrava), mas amou-o intensamente naquele segundo e esqueceu de qualquer possibilidade de separação. Com a barriga explodindo sentou sobre o sofá com ele, todo encolhido num cobertor, controle em punho jogando algo de luta com o queridão. Jogaram, foderam, dormiram. Acordou no dia seguinte babando em cima do travesseiro, com a cueca atravessada (jesus, como que ele fez isso?). Mexeu no mouse e veio a fome. Googleou "delivery" e...
ferin

sem

As luzes cintilavam, fracas, nos olhos tão escuros. Esses, observavam um teto sujo onde um halo amarelado circundava a lâmpada velha, bocal pendurado balançando no fio descascado. O cobertor pesado cobria parte dos quadris, parte do pau, parte das pernas, parte de um vazio que não podia ser um inteiro, mas pequenas partes de um nada imenso. As mãos cobriram os olhos e desceram para a boca para cobrir os soluços, e então os dedos se encresparam, violentos sobre o rosto, apertando pele, nervos, carne. Podia sentir aquela inexistência que escorria dos vãos dos dedos, que cobria seu rosto, tingia seu cabelo de pavor, de desespero. Curvou o corpo, abraçando as pernas, sentiu a dor que irradiava do abdômen que se contraia em espasmos.
O cobertor caiu pelo chão atopetado de coisas, uma mancha escura numa multidão de cores quentes, geladas ao toque. Levantou-se. devagar, encaminhou-se à janela entreaberta, um fio fino e frio de vento enfiou-se pela fresta e veio tocá-lo, violento, na face avermelhada. Apertou os olhos com força, esfregou-os com os punhos, fungou. Abriu a janela. Braços o envolveram por trás, finos, clarinhos e pernas encostaram nas suas pernas. Algo foi dito, baixinho no ouvido, mãos acariciaram cabelos, escorregaram pelo rosto, pelos lábios. Mãos que se afastam, abrem portas, dirigem carros. Sobrou um vulto frente a uma janela, nu, observando com olhos incandescentes o automóvel se distanciar, fumaça de pó que cobre encostos cansados, apoios endurecidos, mesas velhas, manchas e copos cheios de cigarro.
Vestiu-se devagar, colocou a cueca, vestiu a calça, abotoou a camisa, fechou o cinto, ajeitou a dor que ardia sob todas essas roupas, sob a pele, sob o coração murcho e doente, que em espasmos tentava bater mais rápido, mas não tinha mais forças pra possibilidades. Viu sobre a cama dois relevos amassados, duas marcas de corpos. Deitou frente a elas, observando as duas pessoas inexistentes que se abraçavam invisíveis, e tentou alcançar o rosto que seria o seu, logo a frente. Tocou-o, fingiu acariciá-lo. Falou com ele em sussurros baixinhos.


Bateu a porta, era tudo muito azul lá fora. Podia ver em seus braços, a mesma tonalidade fria que cobria tudo. Um sorriso muito aberto, muito cheio de dentes, abriu-se sem sentido, quase cruel, debochando de todo o resto do corpo que ficava lá atrás, grudado no tecido da cortina.


Foi até outra cama, cobriu-se de outros beijos, acariciou uma outra mão. Essa, que não podia lhe bater, também não podia lhe guardar.
  • Current Location: Brazil,
  • Current Mood: contemplative contemplative
  • Current Music: Só Pra Ser Teu Homem - Johnny Hooker
ferin

Infantil

Maitê gostava de brincar com lego. Passava tardes absortas montando tijolinhos coloridos e vendo crescerem construções gigantescas, padrões intrincados de plástico gelado que se tornavam torres, fachadas, arcos. Surgiam estádios, prédios, naves espaciais, centros de pesquisa e uma infinidade de lugares arrancados diretamente daquela imaginação complexa.
Era sozinha. Gostava bastante de lasanha de microondas (de calabresa), de coca-cola, de barulhinho de chuva e de andar pela casa de meias. Adorava gatinhos, mas desde que o tutano tinha derrubado um coliseu neovenusiano quase no final, deu o gato pra sobrinha de 5 anos. O problema não era o bichano ter destruído a obra. O problema foi não ter esperado a construção estar finalizada, e isso era imperdoável. Maitê era muito magra, se alimentava mal. Passava metade do tempo programando, e a outra metade montando contruções gigantes de lego. Tinha essa necessidade quase doentia pela lógica, pelos padrões, seja a lógica simples da programação, seja a lógica abstrata e complexa de seu cérebro que criava padrões arquitetônicos que pareciam não fazer o menor sentido, e nem mesmo ela conseguiria te explicar, nem tentaria não teria paciência. Sair de casa pra ela era um sufoco, normalmente era forçada a ir em alguns eventos de família. Era sempre muito seca, não entendia porque as pessoas eram tão complicadas e irracionais, e não tinha paciência pra elas. Ficava sempre calada, dava de ombros quando perguntavam qualquer coisa. E voltava pra casa indiferente. E terminava mais uma construção. E destruia.
Era a melhor parte do processo quando sentava no tapete da sala ampla, que tinha só pra isso, e desmontava pecinha por pecinha, colocando tudo em montinhos separados por cor. A cabeça já ia longe em outras construções que podia começar a montar assim que acabasse de dar fim naquela. Não fotografava nem nada, o momento da criação veio e se foi, o tempo não volta atrás. Dai acabava, levantava, tomava um banho longo e sem pensamentos. Andava até a janela, abria bem a persiana e olhava pra cidade enorme que se perdia além da vista, prédios imensos empilhados e aglomerados, cores, formas, reflexos.

Ela sempre fazia a mesma coisa: Olhava praqueles padrões intrincados de concreto gelado que brotavam do chão, ria e falava: "amadores"
Depois pegava um copo de coca e ia ver um filme no netflix.